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Arte viva: Eu sou um gato

  • José Ribamar Mitoso
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura

"Sou um gato. Ainda não tenho nome. Não sei onde nasci. Tudo o que sei é que miava em um lugar escuro e úmido quando, pela primeira vez, vi um ser humano. Mais tarde descobri que ele era um estudante — o tipo mais feroz de humano que existe. Dizem que esses estudantes às vezes capturam gatos, fervem-nos e os comem. Eu, porém, tive a sorte de não ser comido.”

       

(Gato sem nome, livro "Eu Sou Um Gato", de Natsume Sōseki, tradução inglesa de Aiko Ito e Graeme Wilson, Ed. Tuttle Publishing / Tradução brasileira Ed. Estação Liberdade)

"Dizem que a inteligência humana é superior, mas eu nunca vi um humano capaz de dormir com tanta elegância  quanto um gato.” (Gato sem nome)


Arte Viva, leitor(a). Por gentileza, tenha calma. Muita cautela ao julgar o título deste artigo. Espere o segundo parágrafo. E ao lê-lo, tente pensar. Ou sentir. Julgar é cafona. Veja. Fui um adolescente bonito. Amigas diziam que eu era um "gato". Físico. Como na peça "gata em teto de zinco quente", de Tennessee W., era mais mentira que desejo.


Calma. O título deste artigo se refere ao romance satírico "Eu sou um gato" (1905 ), de Natsume Sōseki (1867-1916). Sim. E também por hoje eu ser espiritualmente um gato,  educado por filhas gatas. Mas manterei o foco no livro. Ele segue a linhagem de Balzac. Estética vegana. Narra com sensiência animal. Cult. Nova Era.Bora.

   

Natsume é menos sensiente e vegano que Balzac. O gato sem nome, bem-humorado, satírico, outsider, sacânico, sarcástico, filósofo brilhante , poeta e  antropomorfizado é o próprio Natsume, que ao rir de si mesmo, ri da sociedade Japonesa na Era Meiji (1868-1912), na transição do feudalismo ao capitalismo. 

     

Balzac é a gata Beauty ao narrar em primeira  pessoa "penas de amor de uma gata inglesa (1842). Expressa sentimentos, percepções, gestos e comportamentos felinos. Gateir@s entendem o que digo. Natsume cria o gato sem nome para narrar, mas narra mais como humano. Genial. Mas humano. E, através do gato, ri de si.

   

Sim. Acautele-se. Eu sei muito bem que a verdade da ficção não ultrapassa o livro, e-book, caderno ou muro. Mas o Natsume, com um olhar outsider, deslocado, ambienta a narrativa no Japão, durante o choque  cultural da transição do feudalismo samurai rural, de tradição cultural milenar, para o capitalismo industrial, urbano, global.

   

Mas é ficção. Não existe. O que existe é que assim como o escritor Natsume "Sōseki", ("incômodo", em Kanji), a personagem Kushami, pai do gato, e criado por Natsume para rir com dignidade de si e dos outros, é um professor inseguro, neurótico, inadaptado, samurai feudal falido que virou o típico intelectual capitalista. 

   

Ao narrar e rir da vida íntima e social do amoroso pai humano que o adotou, e que o mima, o gato bem-humorado narra também o choque tenso entre o padrão cultural interno de uma das mais antigas civilizações com o padrão cultural externo da modernidade industrial.O gato ri da adaptação social à cultura  da aparência.

     

Sobre aparência, aliás, volto a Tennessee W. e sua "gata em teto de zinco quente". Uma querida  amiga que me elogiava na adolescência me encontrou na praia de Ipanema e disse que eu continuava um " gato". Falei que espiritualmente sim. Falou que estava mais gato ao sair de 55k para 58k. Como o olhar pode ser tão exato?

Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.       


Rio de Janeiro (RJ), 7/5/2026.


*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva

 
 
 

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