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Crônicas do cotidiano: A Ignorância Estratégica como Arma Política

  • Foto do escritor: Walmir de Albuquerque Barbosa
    Walmir de Albuquerque Barbosa
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

Definimos a ignorância como ausência de conhecimento. Mas, há muito pouca contestação sobre isso por parte daqueles que não se consideram ignorantes, o que é um paradoxo em si mesmo, pois considerar-se “sabido”, “conhecedor de tudo” é demonstração de ignorância. Ter a consciência  socrática de que todos nós pouco sabemos e nossa ignorância é um fato,  também, é uma virtude. Em sendo assim, podemos pensar na ignorância como algo democrático, que se distribui indistintamente com todos, já que o mais sabido entre nós será um ignorante em muitas outras coisas. Veja só onde nos metemos! O assunto é complexo, coisa para especialistas, mesmo que, no nosso dia-a-dia, nos deparemos com a ignorância em cada esquina, em cada conversa entre amigos, nas redes sociais e institucionalizada na mídia, nas Instituições Religiosas, nas Universidades e onde menos se espera encontrar: nas ciências em geral. Tanto é que Karl Popper (1902-1994) elegeu, como fundamentos da Ciência, a Refutação e a Negação da Verdade Científica, para que os seus achados não se tornassem dogmas. Mais tarde, outras correntes científicas foram além, dessacralizando a ciência como a única forma de conhecimento verdadeiro e ampliando o saber, o que nos proíbe de acatar as classificações espúrias que colocavam “sombras da ignorância” no conhecimento dos povos quando estes não se  enquadram nos cânones eurocêntricos e ditos Universais. Recentemente, a disciplinaridade dá lugar à interdisciplinaridade na ciência.


Peter Burke, historiador britânico e celebridade acadêmica que aceitou o desafio de reunir e ampliar o conhecimento sobre a ignorância, nos brinda com a sua obra mais recente, intitulada “Ignorância: uma história global” ( São Paulo: Vestígio, 2025) e nos fala de uma Psicologia da Ignorância, de uma Sociologia da Ignorância, além de uma tipologia variada de Ignorâncias, dentre elas a “Ignorância Estratégica”, a qual tomamos como parte de nosso título. Segundo o historiador em comento, “até agora a discussão se concentrou em três grandes tópicos: não saber algo, não querer saber algo e não querer que outras pessoas saibam algo. Entretanto é impossível escrever uma história desses tópicos sem introduzir conceitos que estão ligados a eles...Hoje, a ideia de ignorância é frequentemente empregada como um “guarda chuva” intelectual que cobre diversas ideias vizinhas, como a incerteza, a negação  e até mesmo a confusão” (p. 35-36). É aí que se inclui a síntese da ignorância na nossa sociedade, que escapa da ignorância individual para o campo da Ignorância Coletiva, quando todos os meios são postos a serviço de um propósito: a dominação nas suas diversas formas, dentre elas, a dominação econômica, bem visível na divisão do trabalho e na  privação do conhecer a totalidade do processo para hierarquizar as formas e os modos de conhecer,  ornando a “Ignorância Organizacional”; a divisão em Classes Sociais, separando os que podem saber do “povo comum”, dificultando o acesso ao conhecimento disponível em determinado tempo histórico; invenção da Raça, para agregar a ela camadas dos preconceitos; a Ignorância Feminina, cunhada pelo machismo ao considerar a mulher como incapaz de apreender o conhecimento e ignorar os seus feitos; e, na forma inversa, a Ignorância Masculina, quando mulheres culpam os homens por todas as suas privações, aquelas que marcam as disputas entre os gêneros, muitas vezes desnecessárias à convivência humana. Assim, “nuvens de ignorância” se espalham sobre o mundo e estão presentes em todos os lugares onde os conhecimentos se avolumam e onde alguns, os mais espertos, delas se apropriam politicamente e as colocam a serviço da perpetuação da dominação, em todos os cantos da vida social e dos afetos, nas relações humanas. Isso se vê à luz do dia, quando nos bombardeiam pela mídia com as mentiras, com as armações dos grupos políticos interessados no ódio, na disseminação das “teorias da conspiração” e nas artimanhas tecnológicas que facilitam o crime e nos carregam para o mundo da “Servidão Voluntária” (Étienne de la Boétie), apossando-se dos nossos desejos, da nossa “Vida Ativa” (Hannah Arendt). A ignorância usada como estratégia, solapa não só o conhecimento, mas cria as condições de aceitação do autoritarismo, das guerras, dos prejuízos financeiros dados pelos “grandes e fáceis negócios” ou nos entrega aos milagreiros, que nos prometem o céu e, ao mesmo tempo, nos arrastam para as portas do inferno!




Jornalista Profissional.

Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas.

Manaus (AM), 24/4/2026.

*Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano.

Confira na obra "Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia".

Confira no canal do EMERGE a entrevista no programa Programa Comunicação em Movimento 09

 
 
 

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