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Crônicas do cotidiano: O Mundo não é um Ovo de Páscoa

  • Foto do escritor: Walmir de Albuquerque Barbosa
    Walmir de Albuquerque Barbosa
  • há 8 horas
  • 3 min de leitura

A lojinha de chocolates, como uma lata de sardinha improvisada num contêiner, deixava um rabicho de fora como a cauda de um lagarto marrom. Era a fila que se formava para comprar chocolates! Ao passar pela lojinha fechada, no dia seguinte, por suas vidraças dava para ver que todo o estoque foi vendido, nem um ovo quebrado ficou esquecido nas suas prateleiras. Com os meus botões, cheguei até a pensar que essa coisa de vender chocolates pode ser um grande negócio, no mínimo um bom começo para outros grandes empreendimentos. E a minha reflexão não terminou por aí. Em casa, já assistindo o telejornal, fiquei sabendo, dentre outras coisas, do sucesso estrondoso do comércio, pois cerca de 140 milhões de brasileiros foram às compras nas festas da Páscoa deste ano. Mas, alguns comentaristas enfatizaram que essa farra não combinava com o  endividamento das famílias, “o mais alto de todos os tempos”, que faz o governo até propor novo “Desenrola”, o que é de supor, interessante em tempos eleitorais, entre outros revivais: Caiado, dos tempos da UDR, candidato à Presidência da República; a volta dos programas espaciais, agora vendo o lado oculto da Lua; um novo “Maluco Endiabrado”, tendo ao lado aquela caixa-preta com os botões da Bomba Atômica, dizendo-se “Imperador do Mundo” e prometendo “acabar com uma civilização de três mil anos em uma só noite”; a turma da Jovem Guarda, da Bossa Nova e da Tropicália voltando aos palcos envelhecidos, oitentona, despedindo-se de seu público e recebendo aplausos; músicos e cantores de bandas de Rock fazendo as pazes e voltando a tocar em festivais; e, lamentavelmente, figuras desfiguradas do jornalismo brasileiro, se “reinventando” na internet , nos velhos jornalões e na TV paga, trazendo de volta o “Lavajatismo”, agora chamado Lava Jato 2.0, com o mesmo descaramento. Esse é o mundo que emergiu dessa Páscoa, contraditório, surpreendente; mundo que não leva a sério os acontecimentos constrangedores que hão de nos atormentar daqui por diante. As coisas estão confusas no mundo dos que podem menos, o que nos obrigará a levar a sério esse “vaudeville”, muito assemelhado a outros, de outros tempos, e de consequências funestas.


A lojinha de chocolates, que vendeu tudo, é a comprovação das condições de vida da maior parte da população de um país, toda a sua população ativa, que só foi às compras porque tem emprego e renda, “como nunca se viu neste país”, mas está em perigo. A pressão dos senhores das finanças do país está em alta: acham que é preciso desaquecer a economia, tem gente empregada demais, pensando até em acabar com a jornada de 6x1 e querendo  salários mais altos; o país ficará pior se os juros da Selic baixarem,  pois os investimentos voláteis se afastarão das Bolsas; e se a indústria crescer mais para dar conta da demanda, os investimentos deixarão o Mercado Financeiro   para virarem investimento, capital fixo e social. Enquanto isso, não vemos o lado oculto das novas tecnologias porque as nossas Universidades e Institutos de Pesquisa Públicos não têm mais dinheiro nem para pagar os custos das patentes das inovações conseguidas com dolorosos anos de pesquisa. As ameaças do “Maluco” sobre nós e seus interesses escusos continuam na ordem do dia incensados pela claque de vira-latas sequiosa de poder. Não conseguimos uma renovação de lideranças políticas compromissadas com os destinos da nação, pensando no futuro; uma tragédia que obriga aos mais velhos a tarefa estafante de assumir o futuro temendo que este lhe escape das mãos, tudo para não deixar que os incumbentes do mal e alguns canalhas envelhecidos voltem ao palco da política, exibindo o “colarinho branco”, sem ter purificado o caráter; ficamos reféns da ladainha cotidiana da imprensa comprometida com a mercancia da informação e da degradação da notícia, abrindo um cenário de guerra pela audiência, pelo espetáculo, pela venalidade da desinformação que desonra, que difama e deprecia a verdade. Enfim, o que nos resta de bom? O que sobra nessa terra arrasada e mergulhada na alienação? Sobramos todos nós, vítimas conscientes ou não desse espetáculo macabro do individualismo e do desamor! Sobramos todos nós, ainda com vida, a tempo de abrirmos nosso olhos e percebermos que de algum modo, nos momentos de crise, o real, o certo e o possível são intangíveis, eles estão bem ali, perto de nós, separados, apenas, por nossas ignorâncias, por nossa estupidez ou, quiçá, por nossas cegueiras ideológicas!


Jornalista Profissional.

Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas.

Manaus (AM), 10/4/2026.

*Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano.

Confira na obra "Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia".

Confira no canal do EMERGE a entrevista no programa Programa Comunicação em Movimento 09

 
 
 

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