Crônicas do cotidiano: É Grave!

Quem viver verá! Quem viveu, já viu, e eu não quero ver de novo! Não é coisa de Pitonisa ou desses “adivinhadores” mequetrefes a enganar os bestas nas redes sociais, é a herança histórica e a realidade hodierna dos fatos. As Democracias estão morrendo e quem quiser saber mais sobre isso recorra a Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, que estudaram a fundo o problema. Não é um fato isolado, coisas do Brasil. Nossas mazelas imitam o que ocorre pelo mundo como soe acontecer com todos os colonizados. Essa falta de autoestima e essa compulsão à imitação, sobretudo daquilo que não presta, é o que mais nos anima. Mergulhados no Capitalismo Tardio e nas suas crises cíclicas, que nos abalam muito mais, a história se repete com maior robustez e a verdade, nua e crua, daquilo que K. Marx cravou no “18 de Brumário de Luís Bonaparte” parece uma verdade incontestável: “A escória da sociedade acaba por formar a falange sagrada da ordem”. Essa passagem da obra de Marx é a mesma que serve de dístico à obra de André Singer: Impasse: O Brasil Diante da Onda Reacionária (São Paulo: Companhia das Letras, 2026), onde é possível conhecer as raízes da crise, sua direção, os atores e os fatos que dão a dimensão à Questão Política que deságua na campanha da próxima Eleição. Quem acompanhou os últimos acontecimentos da semana, o Comício da Paulista do último 7 de setembro, onde estavam representadas, por seus prepostos, todas essas forças que desencadeiam e sustentam a problemática da crise, deve ter decodificado dos discursos inflamados as propostas fascistas que nos esperam, se não as derrotarmos: a exacerbação de ânimos da extrema direita incitando a violência política; os líderes messiânicos e salvacionistas fazendo o chamamento dos que perderam a dignidade para entregar-se à salvação, o que depende do fim do Estado Laico; e o descaramento dos lobistas pendurados nos Partidos Políticos. Nenhuma dessas “lideranças” revelaram os seus reais propósitos e preferiram dirigir-se à “falange sagrada da ordem” usando a escatologia do Velho Testamento ou fazendo chamamentos mundanos às Teorias da Prosperidade; pregando a salvação das almas pela entrega incondicional de seus direitos civis e políticos, exibindo sua pobreza de espírito; e, no mesmo palaque, o banditismo organizado com mandatos e infiltrado no poder político ou no sistema econômico e jurídico do país. Tudo que escapava da boca suja dessa escória atravessava as nuvens e caía nos olhos e ouvidos da multidão de seguidores nas Redes Sociais, impulsionado por militantes robotizados. Tudo isso é real!
Não adianta creditar essa algaravia ao momento das campanhas políticas para as próximas eleições, pois tudo se faz com “método” visando o golpe, daí o perigo iminente. Até cheguei a acreditar na primeira versão, mas, nos desdobramentos, tudo fica mais claro: é a crise, é o golpe nas suas sucessivas versões, na busca de um momento propício. Lembra outros momentos de crise já vividos pela República quando o Udenismo Político, representando o reacionarismo de parte do eleitorado, foi aliando-se aos militares de alma golpista faccionados nas unidades militares das três armas, a grupos religiosos conservadores, à imprensa dita liberal e aos lobistas das grandes empresas multinacionais que aqui operavam. O caldo da violência foi engrossando por sucessivas tentativas de golpe até que a Ditadura Militar de 1964 emplacasse e, mesmo dentro dela, outros golpes ocorreram para fortalecer e radicalizar o Estado de Exceção. Não é possível esquecer a pusilanimidade da Elite Econômica da época, que manipulou, sub-repticiamente, todo o processo de desconstrução do modelo econômico voltado para as políticas públicas de diminuição das desigualdades sociais com as acusações de que se instalaria no país um Regime Comunista. Queriam, isso sim, salvar as benesses gozadas pelo setor privado, incluindo o latifúndio rural com suas iniquidades seculares e os subsídios dados ao setor privado pelo Estado. Essas forças do passado estão presentes nas pessoas de seus herdeiros na nossa estrutura econômica e social: latifúndio virou agronegócio; banqueiros e agiotas e crime organizado construíram conglomerados financeiros mais refinados; e religiosos conservadores prosperaram tanto, sendo alguns, hoje, até donos de bancos privados e de partidos políticos. Tudo é muito grave! Não podemos cochilar!

Jornalista Profissional.
Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas.
Manaus (AM), 11/9/2026.
*Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano.
Confira na obra "Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia".
Confira no canal do EMERGE a entrevista no programa Programa Comunicação em Movimento 09

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