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Mídia, poder e discurso: A campanha que driblou o algoritmo das Big Techs

Foto do escritor: Júlia Klein Caldas e Bruno Lima Rocha
Júlia Klein Caldas e Bruno Lima Rocha
há 5 dias
4 min de leitura

Muito se debate sobre a recomposição da campanha de segundo turno do presidente Lula, que o levou à reeleição e ao quarto mandato. No primeiro turno, a coligação liderada pelo PT pouco se movimentou, aparentemente à espera de que as denúncias envolvendo o banco Master e as relações pouco ou nada republicanas de Flávio Bolsonaro surtissem efeito. Contudo, a estratégia não funcionou. Na etapa decisiva das eleições, a campanha de Lula passou a ser coordenada pelo ex-governador do Ceará, Camilo Santana e pelo governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles. Em relação ao digital, a mobilização promovida por André Janones foi fundamental.


Mas, afinal, qual foi a estratégia de Janones ao criar o “Exército do Lula”? Driblar os algoritmos das Big Techs é um desafio e tanto, sobretudo diante dos investimentos expressivos das candidaturas de extrema direita com impulsionamento pago. Nesse cenário, a mobilização de Janones destacou-se pelo engajamento orgânico e pela promoção de um militantismo digital em defesa da democracia e dos direitos conquistados. A estratégia apostou na disseminação de ações de agitação política em diferentes ecossistemas digitais, ampliando o alcance da mobilização para além dos mecanismos tradicionais de visibilidade nas plataformas.


Tudo isso ocorreu apesar das denúncias de manipulação algorítmica envolvendo principalmente a Meta, controladora do Instagram, Facebook e WhatsApp, e o Google. Segundo relatos de usuários, as buscas em relação aos candidatos presidenciais eram direcionadas de modo a favorecer abertamente o representante da extrema direita. Ainda assim, a mobilização digital coordenada por Janones reuniu mais de 10 milhões de voluntários na reta final das eleições. A estratégia remete à campanha presidencial de Barack Obama, em 2008, quando o então candidato utilizou o Twitter como ferramenta de comunicação com eleitores e diferentes públicos.


Outra experiência trazida dos Estados Unidos foi a transmissão contínua de 24 horas em rede social, após o debate dos presidenciáveis na Rede Globo. Na série "House of Cards", da plataforma de streaming Netflix, o oponente do então presidente dos EUA, o manipulador e cínico Francis Underwood, decide tentar uma "live" de longa duração na véspera das eleições.


No auge do engajamento do "Exército do Lula", um dia antes das eleições de segundo turno, o país assistiu a gigantescas manifestações em diversas cidades brasileiras, algumas delas com mais de um milhão de pessoas. Vale ressaltar que as marchas de apoio a Lula e à democracia tiveram início logo após o resultado do primeiro turno, quando estudantes de Direito da Universidade federal Fluminense (UFF) saíram às ruas para mostrar resistência ao conservadorismo recém eleito em boa parte do país. A cada concentração de massas, maior era o engajamento nas redes e vice-versa. Outro caminho do militantismo digital promovido por Janones foi a estratégia de recrutar jovens eleitos e influenciadores para aumentar a presença digital de Lula nas redes.



Lições da campanha


Definitivamente, no plano da mobilização digital, foi descoberto um caminho para superar a assimetria diante do poder das Big Techs. Finalmente, o conluio de Marco Rubio e das plataformas financiadas pelo Pentágono se viram derrotadas. Primeiro nas urnas e, agora, com investigações abertas no Supremo a respeito da ingerência estrangeira nas eleições presidenciais de 2026.


Fica, portanto, a reflexão sobre como adaptar esse formato de mobilização para que governos de centro-esquerda se comprometam mais com as maiorias sociais do que com o capital parasita. Essas ações também podem contribuir para que governos de coalizão avancem para além da democracia liberal, aproximando-se de um modelo de democracia socialista, com maior participação popular e proteção aos direitos.


Por fim, a defesa da soberania nacional e popular é fundamental para libertar a identidade coletiva brasileira do domínio de setores da extrema direita alinhados a interesses estrangeiros. Esse paradoxo começa a ser superado, mas permanece a questão: por que setores tão profundamente neocolonizados insistem em se apresentar como “patriotas”, quando suas ações os tornam subordinados ao imperialismo? Afinal, que país queremos construir, inclusive em ambiente digital? Um país que reproduz a lógica da Casa Grande, exporta grãos e minérios e se submete às Big Techs, ou um país aquilombado, que investe no desenvolvimento científico e tecnológico de ponta e estabelece marcos legais para conter o abuso do poder econômico e a tirania empresarial de bilionários como Mark Zuckerberg, Elon Musk e Peter Thiel?






Pesquisadora, doutora e mestra em Linguística Aplicada pela Unisinos (ambos com bolsa Capes integral) e jornalista.

Realiza estágio pós-doutoral na UFSCar (PPGL).

Integra os grupos de pesquisa Economia Política da Comunicação e da Cultura (EPCC - CNPq/FCRB), e o Laboratório de Estudos Epistemológicos e de Discursividades Multimodais (LEEDiM/UFSCar).














Pesquisador, doutor e mestre em Ciência Política pela UFRGS, graduado em Jornalismo pela UFRJ (ECO).

Fez estágio pós-doutoral em Comunicação na UFF (2024) e em Economia Política na UFRGS (2018-2020).

Possui mais de 15 anos de experiência como docente nas áreas de Relações Internacionais, Ciência Política e Jornalismo.

Possui larga experiência como analista e comentarista político nacional e internacional.

Atua também com projetos de comunicação popular, com foco em radiodifusão comunitária.

 
 
 

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