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Arte viva: Bené que muito é: o teatro, os movimentos e as políticas culturais em tempos de "Madame Tutela D'Artes"

  • José Ribamar Mitoso
  • 19 de fev.
  • 4 min de leitura

"Meu querido leitor/hoje venho lhe falar/ do teatro mais antigo da cultura popular/ Vou falar do mamulengo/ para a cultura preservar/ Desde a antiguidade tentava se projetar/ representação de imagens/ com luzes a focar/ as figuras humanas que iriam representar/ Criavam estilos/ em sua confecção/ uns tinham hastes/ para entrar em ação/ O importante é que eles fossem manejados com as mãos/ O mamulengo é o teatro em sua forma mais bela/ agrada desde reis ao povo da favela/ muitos foram herdados da cidade de atella/ O mamulengo em Roma para vocês eu revelo/ tinha dois personagens/ Benedito e Polichinelo/ Alegrava todo o povo com seu estilo singelo/ no teatro de mamulengos/ vejo as vivências do povo/ Desde o tempo paleolítico quebrou a casca do ovo/ teve muitas vertentes/ não é um teatro novo/ Marionete se origina da redução de Maria/ um caráter religioso/ que em outro tempo havia/ eu consultei os livros e era isso o que dizia/ O teatro de bonecos/ enfeitados com fitas/ foi trazido ao Brasil/ por meio dos jesuítas/ São bonecos engraçados/ com caras esquisitas/ O nome dos bonecos pode ser bem divertido/ varia por lugar/ é isso que tenho lido/ porém o João Redondo é o mais conhecido/ A palavra Mamulengo em sua origem varia/ porém uma delas é que tem mais valia/ dizem vir de mão molenga/ eu também pensaria/ O teatro mamulengo é um teatro brincante/ contagia pessoas/ desde velho a infante/ transmite conhecimento de uma forma fascinante/ eles fazem espetáculo por detrás de uma cortina/ e logo os Mamulengos já diverte e ensina/ arrancando risadas de menino ou menina/ As marionetes têm uma classificação/ são feitas com madeira ou hastes e papelão/ têm marionete de fios/e com mais sofisticação/ A origem do João Redondo é bem tradicional/ originou-se dos escravos/ em sua lida trivial/ João redondo era o patrão/ que os tratava muito mal/ um escravo resolveu com o sofrimento brincar/ imitou os patrões com bonecos a encenar/ representando as torturas que eles tinham que passar/ João Redondo, o patrão/ viu aquela projeção/ refletiu na consciência do ardiloso patrão/ que ficou comovido com a dramatização/ João Redondo ainda vive no nordeste brasileiro/ é pouco valorizado por quem detém o dinheiro/ não divulga a cultura do teatro pioneiro/ muitos bonequeiros sofrem sem atenção/ ao verem sua arte morrendo de inanição/ um pouco de incentivo mudaria a situação/ O bonequeiro está só em natal ou em realengo/ ninguém pode viver da arte do mamulengo/ ninguém quer apoiar/ só se fosse ao flamengo/ O destino dos mamulengos parece ser bem cruel/ o nosso maior bonequeiro foi o Chico Daniel/ que morreu de tristeza com pobreza a granel/ tiriteiro ou intérprete é o mamulengueiro/ que dá vida ao boneco/ seja sisudo ou faceiro/ Tem boneco exibido/ tem boneco arengueiro/ você conhece o Raul?/ Eu vou lhe apresentar/ um grande mamulengueiro/ cá da terra potiguar/ Nem mesmo a universidade seu valor lhe soube dar/ por isso meu amigo/ venho aqui interceder/ valorize a cultura/ não a deixe morrer/ ou perderemos os sentidos e a alegria de viver"

      

"Mamulengo: O Teatro do Povo" / Sírlia Lima


O que é ocultismo, leitor e leitora? Sim, amig@. A versão trivial é o diálogo ritualístico com entes energéticos e espirituais que a ciência não alcança. Na verdade, este ocultismo desoculta o oculto. O ocultismo que falo é  o contrário deste - é o agir obscuro para ocultar a cultura popular de etnias e classes  oprimidas.


Escreverei vários  artigos para desocultar importante movimento cultural da era 60/70/80. Esqueçam o teatro opinião, os festivais de música. Elis linda, Vandré  trapaceado, a "Banda" de Chico cantando o amor, Sérgio Ricardo quebrando o violão, o tropicalismo vaiado. Esta é a versão "local" do sudeste que se impôs como "nacional". 


Vou ajudar a desocultar o de fato nacional-popular movimento cultural do teatro das formas animadas na era 60/70/80. E sua relação com a política cultural da censura. E o farei através das histórias artísticas de  Paulo Mamulengo, Rosângela Melo, Zé Regino, Chico Simões, Chico Daniel, Oscarino e Simão Feito à Mão. 


O teatro do povo  agiu longe da legitimidade e das luzes da mídia dominante, que garantia visibilidade e alguma segurança contra o arbítrio. Ele ocupou o sertão, os alagados, os rios, as florestas, as feiras, as praças, as paradas de ônibus, os aniversários, os casamentos-  enfrentou a opressão que o extorquia.


A estrutura dramática básica é a commedia dell'Arte -  o contato direto com o público, o improviso e as personagens- tipos de estruturas sociais. O Benedito é o negro personagem-protagonista. Popular, porque enfrenta o poder político opressor, e central,  porque  é arquétipo em várias civilizações e nas regiões brasileiras. 


Exemplos. Na Commedia dell'Arte e no teatro de boneco italiano é o  Brighella e o Pulcinella. Na Pérsia ( Iran) é o negro Mubarak ou Kheimeh Shab-Bazi, que enfrenta poderosos e vilões. A lista é longa. Ele é o Babau (PB), o Baltazar (RN), o Simão (PE), o Cassimiro Côco (MA/PI/PA) e o Peteleco, de Oscarino, no Amazonas. 


As outras  personagens são - Catirina, mulher de Benedito. O Capitão,  autoridade repressora. O padre pecador. O latifundiário poderoso. E mitos e animais. As improvisadas tramas dramatúrgicas e  caracterizações satíricas dependiam da realidade cultural onde ocorria  a ação cênica e das tensões sociais da hora.


A cultura popular não é folclore, mas uma linguagem artística popular em permanente  rebelião histórica contra a opressão, como definiu Glauber Rocha, revivido por Chico Simões. Madame Tutela D'Artes vigiava e extorquia com "pedágios" as trupes. Que também a iludiam  pelo improviso e pelo sem aviso. Go back.

Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.       


Rio de Janeiro (RJ), 19/2/2026.


*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva

 
 
 

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