Arte viva: O sol em gêmeos e a posse do Wander Lourenço na Academia Brasileira de Filologia
"A alegria é a prova dos nove".
In Manifesto Antropófago (1928) / Oswald de Andrade
Por uma destas inexplicáveis jogadas do destino, e talvez porque o Sol estivesse em Gêmeos, no dia 16 de julho o poeta Gustavo Medeiros pediu ao escritor, pesquisador e docente Wander Lourenço de Oliveira para me incluir na lista de convidados para a
sua posse na Academia Brasileira de Filologia. A cerimônia de posse do Lourenço ocorreria no Auditório Glauber Rocha, no Museu da Imagem e do Som, na Praça XV .
Após a posse, em um belo grupo, fomos à Casa do Cordel assistir ao músico/melodista mineiro Amarildo Silva apresentar em show as composições que criou em parceria com o Lourenço. Lá encontrei a atriz e pensadora Lúcia Pardo, minha amiga ancestral. Entre o gesto do poeta Gustavo e a agradável noite artística no centro do Rio Antigo, a cerimônia de posse mobilizou minhas emoções racionais e meus pensamentos emotivos.
A cerimônia foi conduzida pelo presidente Amós Coelho da Silva e pelo vice-presidente Deonísio da Silva. E a mesa foi composta por várias acadêmicas e vários acadêmicos da ABRAFIL. O bom humor e a alegria visível de ambos, (que é a prova dos nove ), sintonizaram o ambiente em uma erudita frequência vibratória de energia saudável, terna, leve e serena. E isto é incrível porque, já há algum tempo, a erudição tem escolhido o mau-humor como preferencial companhia.
O escritor e acadêmico Deonísio da Silva já iniciou informando que na ABRAFIL as cerimônias são menos ritos e formalidades, e mais afeto e fraternidade humana. E a partir desta virada na chave dos ritos cerimoniais das instituições acadêmicas brasileiras, ele conduziu a posse do Lourenço de forma leve, suave, tranquila e bem-humorada. Como foram os discursos de todas as acadêmicas e acadêmicos. Que mantiveram a sintonia na frequência vibratória de uma erudição simples, amável, terna e alegre.
Os discursos destacaram a verdade. Lourenço é um dos mais brilhantes artistas/intelectuais do país dos "influencers". Um currículo com vários pós-doutorados, doutorado, mestrado, especializações, teses, dissertações, livros sobre teoria da arte (literatura, sobretudo) romances, filmes, poemas, canções...a lista é longa. Lourenço é um polímata.
Isto é: repito para manter o ritmo narrativo: Lourenço é um polímata transdisciplinar, que mobiliza sua subjetividade ampla, plural e criativa para aquilo que Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) colocou em poema : "Sentir tudo de todas as maneiras / Viver tudo de todos os lados / Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo / Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos".
Como este texto é apenas uma crônica do cotidiano, e não uma matéria jornalística ou um ensaio acadêmico, evitarei cuidar aqui das suas estéticas artísticas e de suas epistemologias acadêmicas. Não é o objetivo. Seria injusto sintetizar em alguns parágrafos uma experimentação estético-estilística que flutua por várias formas artísticas, como a literatura, o teatro, a música e o cinema. Seria injusto fazer o mesmo com as epistemologias que estruturam seu pensamento e suas reflexões acadêmicas.
Voltando aos discursos acadêmicos de saudação: eles destacaram as qualidades teóricas e artísticas do novo colega. Mas algo diferente mobilizou minha percepção: em uma posse de um novo acadêmico na Academia Brasileira de Filologia, as vozes narrativas revelaram uma saudável expectativa sobre como o trabalho de um artista como Lourenço pode ajudar no fortalecimento de uma instituição acadêmica na cena cultural brasileira. Instigante.
Foi um dia especial. Segundo minha vizinha astróloga, o sol em gêmeos favorece equilíbrio entre apreciação da beleza, comunicação e troca de ideias em tom emocional, alegre e suave. Intuitiva.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 6/8/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.

Comentários