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Arte viva: Os saraus dos poetas da Inconfidência Mineira e o sarau dos saraus MIS/RJ

  • José Ribamar Mitoso
  • 2 de jul.
  • 3 min de leitura

"Não quero ser roupas usadas/ Viver na marra quando não se tem outra chance/ A regra é avance/  O código diz  faça o mais  que possa ou não faça nada  e lave a louça"

(in livro Anatomia, de Alexandre Humberto Andrei, Astrônomo/Poeta do Observatório Nacional e de todos os Saraus/ RJ, que partiu rumo ao astral)  

"O país da Arcádia, súbito, escurece/ em nuvem de lágrimas/ Acabou-se a alegre

pastoral dourada:/ pelas nuvens baixas,

a tormenta cresce."

(Romance XX ou do País da Arcádia, in Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles)

Pois é, leitor(a). O brilhante poeta dos saraus/ RJ e genial astrônomo de Cambridge/ Observatório Nacional Brasileiro foi ver de perto o que observava por telescópio. Doutourou-se no departamento que abrigou Isaac Newton, mas sua simplicidade apenas o permitia inteiro declamando, invisível, em saraus.

Ah e sobre saraus _  desconfio que, em 1619, quando a Madame de Rambouillet  abriu o chambre bleue/ quarto azul da sua  maison/mansão e criou o primeiro salon literário "soirée" / à noite, ela pensava em um espaço  apenas para a elite francesa declamar, pensar, cantar. E paquerar, que ninguém é de ferro. Não é pura verdade?

E também desconfio que ela sabia que os poetas gregos faziam isto. Mas tenho certeza que mesmo sendo uma poetisa e iluminista, de  mente libertária, ela jamais imaginaria que, em 1772,  o poeta árcade inconfidente mineiro Cláudio Manuel da Costa, de Ouro Preto, fundaria o sarau  Sociedade Literária do Rio das Mortes.

Foi neste sarau, realizado em casas, lojas, escolas, igrejas, que os poetas árcades inconfidentes planejaram o primeiro movimento separatista do Brasil em relação à Portugal, que eclodiu em 1789. E foi nos seus poemas-manifestos Cartas Chilenas, que o arcadismo deslizou do bucolismo do lírico para a insurreição do épico. 


Ah: Madame também jamais imaginaria que, no século XXI, este tipo de salon soirée/serão/ sarau viraria um potente movimento cultural nas  favelas, nas  praças, nas bibliotecas, nas ruas e nas praias do Rio de Janeiro. E nem que o poeta Gustavo Medeiros teria a brilhante ideia de criar um site para divulgar este movimento.

Este site Saraus de Poesia mapeou  os Saraus das cidades  do RJ. E também descreveu as características de cada um, com dia e horário disponível, para o público leitor definir e frequentar o mais adequado ao seu perfil. É o primeiro site brasileiro com esta vibe. E o vejo como uma mídia cultural alternativa, original e livre.


Talvez por isto, por perceber a reinvenção artística carioca dos saraus dos poetas inconfidentes, o site foi convidado pelo Museu da Imagem e do Som/ RJ para organizar um sarau em sua estrutura. Convite de  César M. Ribeiro, presidente do MIS, profissional de televisão e cinema, com sensibilidade  atenta e aberta.


O site topou e organizou no MIS o "Sarau dos Saraus", para divulgar e homenagear os saraus deste movimento cultural cari-oca. "Vem pra Cá! Sarau" , "Poexistência" e "Poesia na Feira" foram os primeiros a mostrar sua história. Mas compareceram poet@s de saraus de muitas cidades e bairros.Foi um sarau da poiesis. Arte Viva.

Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.       


Rio de Janeiro (RJ), 2/7/2026.


*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva

 
 
 

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