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Crônicas do cotidiano: A Resposta que não quer calar

  • Foto do escritor: Walmir de Albuquerque Barbosa
    Walmir de Albuquerque Barbosa
  • há 4 horas
  • 3 min de leitura

Em respeito aos que me inqueriram sobre qual foi a reação dos Reitores ao Ministro da Educação do Brasil quando afirmou que nada tinha a acrescentar à sua biografia defendendo a Universidade Pública Brasileira, vou responder e adicionar algumas coisas, de memória, encerrando esta série que é sentimental, factual e documental de uma experiência de vida dedicada à educação. Poderia  discorrer: sobre o Caso Master, coisa que preocupa os 3 Poderes da República e contribuintes; sobre as sentenças “fajutas” de magistrados que desrespeitam a lei, mulheres e crianças; sobre os penduricalhos; sobre o desejo explícito de parte da imprensa brasileira por golpes de estado; e, até, sobre as “capivaras” da nobreza de “colarinho branco”. Haverá tempo para uma discussão mais acurada sobre tudo isso. Mas, falar da Universidade Pública é urgente: ela continua viva, embora corra riscos, seja pelas malvadezas que lhe fizeram e continuam fazendo, seja pela falta de consciência política dos que deveriam pugnar pela sua valorização como instituição permanente e histórica. E aí vai a resposta que não quer calar: todos nós, os Reitores da IES Federais, ficamos estupefatos, não por ouvir o que ouvíamos, mas por presenciarmos o comportamento autoritário, deselegante e vil de um homem público, aquilo que muito chamam de “vergonha alheia”. Com serenidade, o então Presidente da ANDIFES (Associação Nacional do Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), Reitor Tomaz Aroldo da Mota Santos (1944-2020), solicitou um aparte e respondeu: Vossa Excelência será conhecido como o Ministro da Educação que tentou destruir a Universidade Pública Brasileira. É claro que isso foi o suficiente para que a Reunião chegasse a seu fim. Voltamos, então, para as nossas Universidades para executar um pacto de resistência: não ceder à imposição do Ministro em dar falta aos grevistas para que o MEC suspendesse o pagamento de salário dos professores e servidores em greve; levar ao conhecimento do Parlamento e do Povo, por todos os meios possíveis, o intento do governo em relação à Universidade e buscar os apoios necessários; achar alternativas para resolução de problemas imediatos e variados, em cada instituição, como pagamento de contratos atrasados com prestadores de serviços terceirizados (limpeza, conservação e segurança) e com as concessionárias de água, energia, telefonia e combustíveis (recém-privatizadas pela onda do estado mínimo e sequiosas de lucro); buscar parcerias com instituições públicas para ajuda mútua; e atenuar as feridas ideológicas internas dos que sustentaram a radicalização contra as ações de um governo carente de apoio do Parlamento e do Judiciário. Este último, garantiu, até o fim, a legalidade do movimento grevista, limitando-se a coibir alguns excessos. Tempos tenebrosos que colocaram a prova todos os membros da comunidade universitária e as instituições democráticas do Estado!


Com a mudança de Governo, ocorrida em 2003, a Universidade Pública volta a ser uma das prioridades da nova gestão e são grandes os esforços dispendidos para soerguer a instituição: melhoria salarial dos docentes e corpo técnico; reformulação da carreira docente e de servidores; liberação dos concursos e aumento de vagas para docentes; aumento de vagas e recursos para ampliação de instalações físicas e laboratoriais para as instituições que aderiram ao REUNI; empoderamento da CAPES e do CNPq para cumprirem suas tarefas de ampliar e avaliar a pós-graduação e fomentar a pesquisa; assistência estudantil, sobretudo para alunos cotistas; e criação de novas Universidades Públicas em todo o país. Isso tudo provou que a Universidade Pública continuava necessária e mais apta em buscar a qualidade do ensino, da pesquisa e da extensão, coisa que até agora as Instituições de Ensino Superior Privado não foram capazes de atingir, mesmo contando com as benesses dos recursos públicos na forma de bolsas, de crédito educativo, de juros baixos do BNDES, isenções de impostos e até emendas parlamentares. Depois de tudo isso, o que não se esperava era uma nova onda de trevas sobre a Universidade Pública. Muito mais grave, pois atingiu o cerne de sua existência pelo negacionismo radical à ciência, cujas marcas transformaram-se em chagas. Chagas ainda abertas e que precisam ser tratadas e curadas. Delas não me ocuparei agora, porque todos as viram e viveram como vítimas ou como coniventes, omissos ou algozes!

Jornalista Profissional.

Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas.

Manaus (AM), 27/2/2026.

*Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano.

Confira na obra "Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia".

Confira no canal do EMERGE a entrevista no programa Programa Comunicação em Movimento 09

 
 
 

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