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Crônicas do cotidiano: Elogio do Cinismo

  • Foto do escritor: Walmir de Albuquerque Barbosa
    Walmir de Albuquerque Barbosa
  • há 4 horas
  • 3 min de leitura

É claro  que cinismo se refere ao desrespeito às regras sociais, “uma falta de vergonha  ao agir” que suprime a ética e infringe os códigos morais da civilidade. Quando o cinismo é a prática de um grupo ideológico organizado, vira afronta à comunidade de cidadãos e, dependendo de sua monta, à soberania nacional. É o que estamos a ver, neste momento. É claro, também, que o título não é uma pérola inventiva do cronista, nem tampouco preguiça intelectual. É porque ele evoca uma das obras mais sublimes da humanidade e do humanismo renascentista, escrita por Erasmo de Roterdão (1466?-1536), dada à luz em 1508 e dedicada a seu amigo  Thomas More (Mártir da Igreja Católica e Chanceler do Reino da Inglaterra), decapitado a mando de Henrique VIII por recusar-se a jurar a conversão ao Anglicanismo. É claro que estamos falando de uma obra política em forma de sátira, tratando do momento de passagem da humanidade das “trevas políticas medievais” para a civilidade dos direitos. No popular, poder-se-ia dizer: a saída da Europa da Barbárie para a Civilização, nascedouro dos direitos individuais, civis e políticos. E qual é essa obra? Trata-se de Elogio  da Loucura: “nada há de mais natural para a Loucura  que soprar na trombeta da glória e entoar, em pessoa, os seus louvores”. O meu texto é integral, mas a minha edição é uma edição de bolso da “Livros de Bolso Europa-América”, editada em 1973, sem indicação de local e comprada em um Sebo de Livros, em São Paulo, em 1/12/75. E porque faço essas referências fora das normas da ABNT? Não só para livrar a minha reputação de Professor, mas para valorizar a ousadia da publicação, quase clandestina de uma obra importante, no momento em que, no Brasil da Ditadura, censurava-se tudo que se referisse à inteligência, ao conhecimento, o que demonstra o Cinismo dos Poderosos, incensando a burrice e a alienação. Tempos cruéis que vivíamos e não queremos mais!


E por que o elogio é do Cinismo e não da Loucura? Porque a Loucura arvora-se superior a tudo na obra de Erasmo, ela contaminou tudo e a todos, é a senhora de todos os negócios, públicos e privados e até os deuses lhes devem tributo. O cinismo é estágio, bem sucedido ou não, para chegar à loucura política. A Loucura é o Supremo Espírito de uma era de conturbação. Ser Louco, portanto, é o desejo daqueles que tudo fazem para infringir os recatos e conspurcar a consciência dos justos e infundir neles os maus desejos: desejo de todos que se propõem a dominar com sua ignorância, arrogância e sede de poder, os mais humildes. Os Loucos habitam o Olimpo da Era da Loucura. Os Cínicos, como Cortesãos da Deusa Loucura, estão entre nós, almejam chegar lá e, por isso, às vezes, são apenas uns tolos que tudo fazem para parecer loucos e são, apenas, Cínicos! E aqui temos alguns exemplos: quando um Senhor Maluquinho, sem o penico na cabeça, almeja ganhar votos pensando em construir um “Mega-Presídio” no meio da Floresta Amazônica, no  momento em que a UNESCO declara ao mundo que os seus dois Teatros (Teatro Amazonas e Teatro da Paz) tornam-se Patrimônio Cultural da Humanidade, ele ainda não é um louco, é um Cínico; quando um outro candidato, pensando em ganhar votos e a confiança de seu grupo ideológico, traz para a arena da sua festa um Cortesão da Falsa Deusa Loucura para dizer impropérios e ofender a Nação inteira e suas Instituições, ele ainda não é um Louco, é um Cínico. E quando o convidado, Cortesão da Falsa Deusa Loucura, empolga-se tanto e de tão “honrado” em sua missão cai em danação com os convivas, não é, somente, um “Cínico Impetuoso”, um “Palhaço” ou “uma Patética Caricatura” do Cortesão, o bajulador da Deusa Loucura de quem nos fala Erasmo de Roterdão na obra citada acima, mas o “Tolo Perfeito”, aquele que agrada ao Rei na hora certa, mas no lugar errado.


Assim Posto, a realidade é mais cruel que a narrativa que dela se ocupa, confesso com tristeza. Corremos riscos, sim! A Loucura tem subido ao Olimpo do Mundo. As Teorias Conspiratórias se armam contra nós e estão em toda parte. O desassossego é cada vez maior e o cinismo não tem mais limites. Quem evita refletir e reagir à esse mundo enlouquecido, saindo de si mesmo para desparecer pode não encontrar o caminho de volta e aceitar o convite das Musas, (p.145) : “Adeus, pois, ilustres iniciados da Loucura. Aplaudi-me, bebei e prosperai”!


Jornalista Profissional.

Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas.

Manaus (AM), 31/7/2026.

*Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano.

Confira na obra "Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia".

Confira no canal do EMERGE a entrevista no programa Programa Comunicação em Movimento 09

 
 
 

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