Crônicas do cotidiano: O Suor do teu Rosto

Quem não conhece a célebre citação do Velho Testamento, quando, no Livro do Gênesis, o Deus “vingativo e fura olho” dos que escreveram o “texto sagrado” disse a Adão e Eva, culminância da Sua criação, que, após o “Pecado Original”, expulsos do “Paraíso”, “ganhariam a vida com o suor de seu rosto”?! Estava criado, portanto, o trabalho exaustivo, a obediência aos donos do mundo e a mais valia! E eu, que conheço a dor do trabalho, a minha e a dos outros, preferi acreditar no Deus Generoso, que prega a felicidade dos mais humildes, dos que precisam ser resgatados da miséria humana para que haja Igualdade e Justiça no mundo, entrei em estado de Epifania e lembrei de Leão XIII e sua Encíclica Rerum Novarum, a qual sei quase de cor, desde pequeno. Tão logo foi proclamado o resultado da votação no Congresso Nacional, a Casa dos Representantes do Povo, em votação terminal, pensei, também, no inacreditável. Como um Congresso tão espúrio, tão desacreditado, tão conturbado e imiscuído nos braços da corrupção, da trapaça dos lobbies e da “escrotidão” (com pedido do perdão pelo nome feio) e que, com o voto do povo, dá abrigo a notórias células fascistas parlamentares que trabalham pela volta da escravidão, teria aprovado, com maioria esplendorosa, uma proposta de redução da Jornada de Trabalho encalhada há cerca de 40 anos. Confirmava-se aí as cambalhotas que a política pode dar no Brasil e quiçá no mundo: os Parlamentos de Direita terminam se curvando à pressão das ruas e do povo para aprovar medidas que não são do seu agrado premidos pela sobrevivência. Foi assim e em circunstâncias como essa, que o Parlamento do Império, na vigência do Gabinete mais Conservador que tivemos no II Império, encaminhou e aprovou, contra seus interesses, em termos, a Lei Áurea, que definitivamente extinguiu a Escravidão, mesmo sem dar aos libertos nada além da Alforria Coletiva. Dizemos “em termos”, por que o fim da escravidão dos negros sem nenhuma recompensa, empurrou os ex-escravizados, por mais de um século, para o grande exército de reserva de mão de obra do capitalismo periférico. Graças a essa astúcia dos latifundiários e aristocratas, até hoje, a população de mulheres e homens negros e pardos sofrem a injustiça, ocupando os piores postos de trabalho, recebendo os mais baixos salários, sob a justificativa histórica de que são despreparados e não se encaixam nos ditames da meritocracia branca. Puro ódio e preconceito de cor e de classe!
Esse é um dos “milagres” que só pode ser operado numa democracia! O Estado Democrático de Direito nos permitiu chegar a esse “Hoje”, por isso não é tão milagre assim! É História! História da luta da Classe Trabalhadora, de um Governo que encampou a proposta revivida por um jovem balconista de farmácia, negro, engajado nas lutas sociais e levada ao Parlamento por uma Deputada, também negra e trans, encampadas pela esquerda e forças do Governo, dos sindicatos e das Redes Sociais, obrigando os estúpidos contrários a entregarem os anéis para não entregarem os dedos. Esses, ainda pregam o revide, daí a necessidade de vigilância, que somente as urnas podem garantir. Isso não é pouco, é um tesouro conquistado e se houver um trabalhador que entenda o contrário, precisa ser resgatado da alienação, pois é inconcebível aceitar os argumentos da Nota da Fiesp, a do CNI e dos outros sindicatos patronais, embora escorados no direito sagrado e democrático de espernear, de que o mundo vai desabar, as empresas vão falir, o índice de desemprego vai aumentar e os “informais”, que hoje eles divinizam como “Empreendedores e quase Ricos”, vão aumentar fora do controle e os preços dos produtos ao consumidor vão subir (e, dizendo isso, cometem o “sincericídio”, confirmando que quem paga e sustenta o Estado e as políticas sociais é o povo e não eles, pois tudo repassam ao consumidor). Na verdade, essas 4 horas ainda custarão pouco para os magnatas, um pouco menos de mais valia: o adiamento da compra dos carros de luxo, aviões e jet-skis com o desvio do dinheiro a juros baixos do “Plano Safra”, financiado pelo Governo Federal, para eles e seus filhos desfilarem nos Rodeios de Luxo do Sertanejão Safado, que suga o dinheiro das Prefeituras; as férias programadas para Miami; as Festas nas Ilhas Gregas; e o desvio para outros Paraísos Tipo Novo Éden ou Maldivas, onde são acolhidos com o tilintar de suas moedas, ganhas com o suor do rosto dos outros!

Jornalista Profissional.
Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas.
Manaus (AM), 16/10/2026.
*Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano.
Confira na obra "Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia".
Confira no canal do EMERGE a entrevista no programa Programa Comunicação em Movimento 09


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