Livro expõe colaboração de montadoras com a ditadura no Brasil
O livro Repressão Sociedade Anônima, de Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, lançado em São Paulo, investiga a colaboração de empresas com a ditadura militar brasileira e seus impactos sobre trabalhadores, especialmente na região do Grande ABC Paulista.
A obra é resultado de três anos de pesquisa documental e entrevistas e concentra-se em cinco montadoras: Mercedes-Benz, Volkswagen, General Motors, Scania e Ford. Segundo os autores, as empresas contribuíram para o aparato repressivo de diferentes formas, incluindo financiamento de equipamentos, presença de militares nas fábricas e atuação de informantes entre os trabalhadores. Grevistas e outros trabalhadores considerados envolvidos em reivindicações podiam ser incluídos em listas compartilhadas entre empresas, dificultando sua contratação posterior.
O livro também aborda as condições de trabalho durante a ditadura, incluindo o elevado número de acidentes e a precariedade dos mecanismos de registro e fiscalização. As mulheres trabalhadoras enfrentavam ainda assédio, controle sobre o tempo de uso do banheiro e outras formas de tratamento degradante.
Os pesquisadores identificaram ainda a existência de um “Dopinho do ABC”, uma estrutura ligada ao DOPS em São Bernardo do Campo que teria funcionado como centro de vigilância e repressão de trabalhadores, sindicalistas e outros ativistas, incluindo casos de prisão e tortura.
O texto também destaca que a Volkswagen foi investigada pelo Ministério Público de São Paulo por sua colaboração com a repressão. Relatório do MPSP apontou uma contribuição intensa da empresa ao aparato repressivo, com conhecimento de sua direção. Em investigação contratada pela própria Volkswagen, o historiador Christopher Kopper também concluiu que a empresa manteve uma relação estreita com o governo militar e os órgãos de repressão.


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