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Mídia no Brasil: Cidadania, religião e IA

Foto do escritor: Eula D.T.Cabral
Eula D.T.Cabral
há 11 minutos
6 min de leitura

Quando falamos sobre mídia no Brasil, estamos tratando de rádio, TV, internet, pessoas, conteúdos, regulamentações, cidadania, soberania, democracia... tudo que interfere no cotidiano das pessoas e está ligado aos meios de comunicação. Hoje vamos tratar de três assuntos que vêm pautando o dia-a-dia dos brasileiros: cidadania, religião e IA. No caso da cidadania, ela só é possível se tivermos um país democrático. E quando se fala em cidadania, estamos nos remetendo aos direitos e deveres das pessoas, além do pluralismo político e políticas públicas. Algo que é o cerne da Constituição federal de 1988, conhecida como Constituição cidadã.

O artigo 1º da Constituição federal de 1988 registra: "A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

I - a soberania;

II - a cidadania;

III - a dignidade da pessoa humana;

IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;         V - o pluralismo político.

Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição". Estudos feitos por cientistas políticos registram que se os direitos e deveres das pessoas não forem respeitados, o povo perde sua liberdade e sofre com o autoritarismo. A professora Marilena Chauí (2008, p.69), em seu artigo Cultura e Democracia, relembra: "Dizemos, então, que uma sociedade – e não um simples regime de governo – é democrática quando, além de eleições, partidos políticos, divisão dos três poderes da república, respeito à vontade da maioria e das minorias, institui algo mais profundo, que é condição do próprio regime político, ou seja, quando institui direitos e que essa instituição é uma criação social, de tal maneira que a atividade democrática social realiza-se como uma contra-poder social que determina, dirige, controla e modifica a ação estatal e o poder dos governantes". O Brasil é um país democrático, tendo uma Constituição federal que garante os direitos e deveres dos brasileiros. Logo, a população vive em um lugar onde as novas tecnologias e os meios de comunicação são acessíveis à maioria que, por outro lado, é controlada por poucos conglomerados. Para entender o consumo midiático do brasileiro, é preciso retomar a PNAD Contítnua sobre Acesso à Internet e à televisão e posse de telefone móvel celular para uso pessoal 2025 (2026). Na área de radiodifusão, registra: 46,9% dos domicílios brasileiros têm aparelho de rádio; 93,9% têm televisão, com recepção de sinal analógico ou digital de televisão aberta, sendo que em 85,8% dos domicílios têm TV aberta. No caso da radiodifusão (rádio e televisão), seis conglomerados midiáticos chegam em todos os lugares, a partir de seus de afiliações, sendo cinco privados: Rede Globo, Rede TV!, Bandeirantes, SBT e Record. O único que é público é a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), estatal federal que trabalha com comunicação e serviço públicos, ajudando a sociedade a ter acesso às políticas públicas. É o caso de sua atuação no Rio Grande do Sul com seus transmissores de ondas curtas que proporcionaram o socorro a milhares de pessoas no meio da enchente. Em relação à TV por assinatura e telefonia, a concentração midiática está com os conglomerados internacionais Claro, Vivo, Net e Sky, além da Oi (em recuperação judicial). O controle atinge 17,7 milhões, ou seja, 23,5% dos domicílios com acesso ao serviço de televisão por assinatura, 5,9% com telefonia convencional e 97,4% com celular.

No caso da internet, 33,4 milhões de domicílios têm acesso a serviço pago de streaming de vídeo, ou seja, para 44,4%. Em 2025, foi utilizada em 95% dos domicílios brasileiros, sendo que 98,7% acessaram pelo celular e, desses, 95,3% a utilizaram para conversar por chamadas de voz ou vídeo. Esse acesso por redes sociais destaca o poderio e controle de dois conglomerados norte-americanos: Meta Platforms (WhatsApp, Instagram e Facebook) e Alphabet (Youtube). O WhatsApp, da Meta Platforms, tem 169 milhões de usuários, atingindo mais de 90% dos internautas brasileiros de 16 a 64 anos. O Youtube, da Alphabet, reúne cerca de 144 milhões de usuários brasileiros. O Instagram, da Meta Platforms, atinge entre 134 e 141 milhões de usuários no Brasil, sendo que 90% dos usuários brasileiros acessam o Instagram diariamente. O Facebook, da Meta Platforms, possui mais de 111 milhões de usuários no Brasil.

Observe que cinco conglomerados privados (Rede Globo, Rede TV!, Bandeirantes, SBT e Record) e um público (Empresa Brasil de Comunicação - EBC) concentram a radiodifusão no Brasil. Cinco grupos internacionais (Claro, Vivo, Net e Sky, além da Oi) controlam a TV por assinatura e a telefonia convencional e por celular. Algo que analisamos na obra Concentração da mídia no Brasil: radiodifusão e telecomunicações (2023). Em relação à web, duas empresas norte-americanas dominam as redes sociais: Meta Platforms (WhatsApp, Instagram e Facebook) e Alphabet (Youtube).

Ressalte-se que a maioria desses brasileiros que são controlados pela mídia é formada por religiosos. A Pesquisa Dados Religiosos 2026 registrou que 56,7% são católicos e 26,9% são evangélicos e 9,3% não têm religião. Logo, estamos falando de 83,6% da população brasileira que é religiosa. Para entender a relação entre mídia, religião, cidadania e IA, vamos analisar um dos documentos publicados pelo papa Leão XIV: Carta encíclica magnifica humanitas do santo padre Leão XIV sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Vamos focar no "capítulo III: Técnica e domínio. A grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA".

No tópico "O paradigma tecnocrático e o poder digital" o papa Leão XIV registrou: "É necessário aqui reconhecer um dado decisivo, que já referi anteriormente: em muitos casos, no contexto digital, o controle das plataformas, das infraestruturas, dos dados e da capacidade de computação não é prerrogativa dos Estados, mas sim de grandes atores econômicos e tecnológicos que, na prática, estabelecem as condições de acesso, as regras de visibilidade e as próprias possibilidades de participação. Quando um poder desta magnitude se concentra na mão de poucos, ele tende a tornar-se opaco e a fugir ao controle público, aumentando o risco dum desenvolvimento distorcido que gera novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades " (95).

 

É importante ressaltar que concentração midiática é um fenômeno em que as indústrias midiáticas passam a ser agrupadas nas mãos de poucas corporações, tanto no âmbito regional quanto mundial. Ela interfere no pluralismo e na diversidade do conteúdo e, no caso da internet, na soberania. Entender o conceito concentração midiática é fundamental para entender o registro 96 feito pelo papa Leão XIV:

"96. Ante esta concentração de poder no mundo digital, os grandes princípios da Doutrina social tornam-se critérios para avaliar e discernir o novo cenário: a dignidade inalienável da pessoa, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social. Estes princípios exigem que se verifique se o poder das infraestruturas digitais e dos algoritmos favorece realmente a participação e a responsabilidade, protege os mais frágeis, assegura um acesso equitativo às oportunidades e permanece orientado para o bem de todos. A partir destas premissas, podemos agora analisar mais de perto o que é a inteligência artificial, quais as possibilidades que abre e quais os riscos que encerra."

Será que a sociedade brasileira já parou para pensar na maioria da população que vive em lugares sem água, sem comida e sem dignidade? Pessoas que também precisam exercer sua cidadania e que dependem do olhar de todos para sobreviver? Pessoas que só têm o poder público, as empresas governamentais e as instituições religiosas lhes amparando? Para entender a relação da Inteligência Artificial (IA) com a mídia, a cidadania e a religião é preciso olhar para quem está ao seu lado e depois retomarmos a influência das novas tecnologias no nosso cotidiano. 


*No dia 17 de outubro de 2026 (sábado), às 16h, realizaremos, ao vivo, o 55. Seminário de Pesquisas Científicas no canal do youtube EPCC Brasil. Analisaremos a relação entre os temas apresentados. Faça sua inscrição gratuitamente e garanta seu Certificado: https://doity.com.br/55-seminario-de-pesquisas-cientificas



Autora: Eula D.T. Cabral  

Doutora e Mestre, com pós-doutorado, em Comunicação Social.  

Dentre suas obras, destacam-se: o livro Concentração da mídia no Brasil: radiodifusão e telecomunicações (2023) - A obra pode ser adquirida a partir do email midianobrasil24@gmail.com - e o projeto de pesquisa  Cultura, Comunicação e Informação na era digital (2025). 



 
 
 

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