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Mídia, poder e discurso: Nunca foi uma "escolha difícil" para os barões da mídia

Julia Klein
há 3 dias
3 min de leitura

O chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG) nunca escondeu seu lado e este jamais foi o da defesa da democracia. O sistema liberal oligárquico necessita de porta-vozes, intérpretes, canais de dissensos, formadores de opinião e donos de reputação, que se mostram por meio do canal cedido pelos patrões. A base disso tudo é um "sistema de mídia hereditária e hegemônica", com trabalhadores/as da comunicação em distintos setores, filtrando, produzindo e canalizando uma parcela importante da economia da atenção.


Em termos de um modelo ideal de comunicação, o “jornalismo de brechas” representaria aquilo que ainda pode ser resgatado dentro do capitalismo, mesmo em sua fase mais perversa, marcada pela especulação financeira e pelo emburrecimento coletivo. No século XXI, em meio à Indústria Cultural, o jornalismo profissional poderia atuar como uma trincheira de resistência civilizada à manipulação potencializada pelos algoritmos, controlados por empresas de tecnologia financiadas pelo Departamento de Guerra do Pentágono. No entanto, essa possibilidade se concretiza apenas parcialmente.


Nos Estados Unidos, conglomerados de mídia que apoiaram Hillary Clinton e convergiram com os interesses de Wall Street enfrentam, agora, a rejeição de Trump, embora ele próprio reproduza discursos alinhados aos da Fox News e de outros veículos conservadores. No Brasil, as Organizações Globo articulam uma combinação semelhante àquela observada em setores do Partido Democrata: incorporam pautas de diversidade e inclusão, socialmente relevantes, mas preservam uma orientação econômica neoliberal, favorável aos interesses do capital financeiro e dos credores da dívida pública. Essa combinação evidencia uma contradição. A valorização da diversidade no plano sociocultural não implica, necessariamente, no questionamento das estruturas econômicas que reproduzem desigualdades.


No jornalismo econômico propagado pela grande mídia brasileira, essa contradição se manifesta na recorrência de expressões como “corte de gastos”, “austeridade fiscal”, “o mercado está nervoso” e “as regras da economia”, apresentadas frequentemente como descrições neutras da realidade. Ao naturalizar determinadas escolhas políticas como necessidades técnicas incontestáveis, esse discurso restringe o debate público, deslegitima alternativas econômicas e naturaliza os interesses dos grupos favorecidos pela ordem vigente. Mesmo pressionados pelo poder das Big Techs (financiadas pelo Tesouro dos EUA), os conglomerados de mídia brasileiros reforçam o discurso rentista ao associar juros elevados e endividamento de empresas e famílias aos investimentos em políticas públicas e sociais, por exemplo.


No primeiro quarto do século XXI, os conglomerados de mídia passaram a depender diretamente do capital financeiro e a utilizar seus veículos, especialmente o jornalismo, mais para legitimar os interesses econômicos dominantes do que para produzir conteúdo cultural. Essa lógica também aparece nas telenovelas, gênero popular entre o público brasileiro, nos quais serviços públicos como o SUS e o ensino, sobretudo o técnico e universitário (gratuitos), raramente são representados. Predominam personagens associados ao empreendedorismo e à ascensão social pelo esforço individual. Embora essas narrativas contemplem a diversidade étnico-racial e de gênero, elas frequentemente apresentam histórias de mobilidade social desvinculadas das políticas públicas necessárias para torná-las possíveis.


Em vez de defenderem até mesmo suas próprias reservas de mercado, os conglomerados empresariais de comunicação priorizam seus “direitos hereditários”, isto é, a preservação de seus privilégios econômicos, em detrimento do interesse público. A sociedade necessita de um jornalismo profissional e de uma indústria cultural comprometidos com conteúdos relevantes, para além do lixo da banalização do consumo ostentatório, da bebedeira, da traição nas relações pessoais e da valorização de um individualismo doentio. Nesse contexto, os discursos de culto ao sucesso e à riqueza praticados pela extrema-direita, sobretudo promovidos por políticos, celebridades e “influenciadores”, não diferem daqueles defendidos pelos barões da mídia.


A disputa se dá em várias frentes: contra a carcomida hegemonia jornalística dos propagandistas da acumulação rentista e à perda da soberania nacional e popular diante do poder das empresas de tecnologia estrangeiras (Big Techs), que manipulam plataformas digitais e promovem discursos que incidem no cotidiano de nossas sociedades. Infelizmente, a extrema-direita encontra um terreno fértil para sua expansão, retroalimentada pela produção de sentidos oriunda da tirania empresarial destes grandes grupos.









Pesquisadora, doutora e mestra em Linguística Aplicada pela Unisinos (ambos com bolsa Capes integral) e jornalista.

Realiza estágio pós-doutoral na UFSCar (PPGL).

Integra os grupos de pesquisa Economia Política da Comunicação e da Cultura (EPCC - CNPq/FCRB), e o Laboratório de Estudos Epistemológicos e de Discursividades Multimodais (LEEDiM/UFSCar).














Pesquisador, doutor e mestre em Ciência Política pela UFRGS, graduado em Jornalismo pela UFRJ (ECO).

Fez estágio pós-doutoral em Comunicação na UFF (2024) e em Economia Política na UFRGS (2018-2020).

Possui mais de 15 anos de experiência como docente nas áreas de Relações Internacionais, Ciência Política e Jornalismo.

Possui larga experiência como analista e comentarista político nacional e internacional.

Atua também com projetos de comunicação popular, com foco em radiodifusão comunitária.


 
 
 

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