Pesquisadoras do EPCC apresentam trabalho no 18° Congresso da ALAIC
- Danielle Fernandes Rodrigues Furlani
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No dia 23 de julho de 2026, as pesquisadoras Eula Dantas Taveira Cabral e Danielle Fernandes Rodrigues Furlani, integrantes do grupo de pesquisa Economia Política da Comunicação e da Cultura (EPCC), apresentaram trabalho no 18º Congresso da Associação Latino-Americana de Pesquisadores em Comunicação (ALAIC). Realizado entre os dias 22 e 24 de julho de 2026, o congresso teve como tema "Comunicação, Soberania e Paz: Horizontes da Justiça na Era da Inteligência Artificial" e reuniu pesquisadores de diversos países da América Latina em atividades presenciais e remotas. Nesta edição, o evento foi sediado na Universidade Autônoma de Nuevo León (UANL), em Monterrey, Nuevo León, México.
O trabalho intitulado "Classificações morais e estereótipos de gênero no antifeminismo brasileiro contemporâneo: uma análise dos discursos de Ana Caroline Campagnolo" foi apresentado remotamente no GT 14 – Discurso y Comunicación, coordenado por Fernando Andacht e vice-coordenado por Silvia Alvarez Curbelo e Carlos Henrique Sabino Caldas.
Conheça a pesquisa
Classificações morais e estereótipos de gênero no antifeminismo brasileiro contemporâneo: uma análise dos discursos de Ana Caroline Campagnolo
Nas últimas décadas, o Brasil assistiu à emergência e à ascensão da chamada "nova direita", marcada pela articulação entre o ultraliberalismo econômico e o conservadorismo programático (Rocha, 2021). Nesse contexto, as lutas pelos direitos das mulheres passaram a ser enquadradas como ameaças à família, ao cristianismo e à nação, sendo frequentemente associadas ao avanço do comunismo (Aguiar & Pereira, 2019). Como parte desse processo, atores antifeministas passaram a disputar abertamente a esfera pública brasileira, ocupando espaços nos meios de comunicação, na política institucional e também no mercado editorial (Furlani, 2024; Galetti, 2024; Tesser, 2024; Martinez, 2026).
Diferentemente de manifestações difusas de misoginia ou sexismo, o antifeminismo é uma forma mais organizada de oposição aos movimentos feministas (Blais, 2022). Frequentemente associado a projetos políticos de nação, articula concepções sobre gênero, sexualidade e diversidade a discursos sobre a comunidade nacional, manifestando-se em múltiplas esferas, dos meios de comunicação às produções culturais e às políticas públicas (Faludi, 2001; Blais, 2022). Embora não constitua um fenômeno inédito, sua reconfiguração em contextos históricos e geográficos distintos apresenta novas especificidades.
No cenário contemporâneo, uma das figuras mais emblemáticas do antifeminismo brasileiro é Ana Caroline Campagnolo, historiadora, escritora, influenciadora digital e deputada estadual de Santa Catarina. Considerada uma das principais lideranças políticas e intelectuais desse campo, Campagnolo atua como formuladora e difusora do antifeminismo por meio de produções editoriais, cursos, clubes de leitura e intervenções públicas. Conforme apontam Cazetta (2017) e Jasper (2016), intelectuais vinculados a movimentos sociais desempenham papel central na elaboração de diagnósticos, enquadramentos morais e estratégias de mobilização, produzindo sentidos que orientam a ação coletiva.
Diante desse contexto, o presente trabalho analisa a construção de representações das mulheres feministas nos discursos de Ana Caroline Campagnolo, considerando as estratégias discursivas, os enquadramentos morais e as formas de legitimação mobilizadas por ela. Para isso, foram analisadas as obras Feminismo: perversão e subversão (2019), Guia de Bolso Contra Mentiras Feministas (2021) e O mínimo sobre feminismo (2022). O estudo dialoga com a Economia Política da Comunicação e da Cultura, sobretudo com os debates desenvolvidos no âmbito do projeto "Cultura, Comunicação e Informação na Era Digital" (Cabral, 2021), e com os estudos sobre antifeminismo, mobilizações antigênero e movimentos sociais.
A análise do corpus mostrou que Ana Caroline Campagnolo constrói representações das mulheres feministas a partir de três mecanismos principais, denominados pela pesquisa como vinculação ideológica, caracterização moral e tipificação. O primeiro mecanismo busca definir quem são as mulheres feministas; o segundo, como elas são; e o terceiro, como se organizam no interior do movimento.
A vinculação ideológica se traduz na representação das feministas como uma parcela minoritária de mulheres que aderem e defendem ideologias revolucionárias de esquerda, sobretudo o comunismo, o socialismo e o marxismo. Para sustentar essa interpretação, a autora constrói uma linha temporal que visa demonstrar quando e como essa vinculação teria ocorrido. Como resultado dessa operação, o feminismo passa a ser concebido como um movimento ideologicamente homogêneo, indissociável do comunismo e direcionado aos interesses de um grupo restrito. Além de negar a diversidade de correntes que atravessam o movimento, Campagnolo produz a identidade feminista como fruto do abandono de suas próprias convicções em favor de um projeto ideológico que ameaçaria a ordem social.
A caracterização moral se traduz na representação das feministas como mulheres com trajetórias de vida conturbadas e infelizes. Para isso, Campagnolo faz uso de adjetivos pejorativos, repertórios históricos de desqualificação de mulheres, reportagens sensacionalistas e elementos biográficos de figuras celebradas pelo feminismo contemporâneo. Em conjunto, esses recursos operam como evidências de que os estereótipos atribuídos às mulheres feministas seriam verdadeiros. Assim, a identidade feminista é construída como sinônimo de ressentimento, fracasso pessoal e degradação moral.
A tipificação reflete o objetivo de Campagnolo de apresentar aos seus leitores "as diversas facetas da mulher revolucionária" (Campagnolo, 2019, p. 33). Nesse sentido, ela classifica as mulheres feministas em três grupos: feministas de elite, feministas perversas e feministas ignorantes. As primeiras seriam aquelas que lideram o movimento, formulando as ideias e construindo uma "imagem pública" para ocultar seus "verdadeiros objetivos", enquanto as segundas seriam as que conhecem esses supostos objetivos e colaboram conscientemente para sua ocultação. Já as terceiras seriam as mulheres que aderem ao feminismo acreditando apenas nessa "imagem pública". O resultado dessa classificação é a organização das mulheres feministas em uma hierarquia moral, na qual algumas manipulam, outras colaboram com a manipulação e muitas são manipuladas.
Conclui-se que Ana Caroline Campagnolo representa as mulheres feministas como figuras que abandonam suas convicções pessoais, adotam comportamentos considerados nocivos e imorais e manipulam ou são manipuladas por outras mulheres. Nessa narrativa, a autora se posiciona como alguém capaz de revelar a "verdadeira natureza" do feminismo e das mulheres que aderem a ele.
Referências bibliográficas
BLAIS, Melissa. Anti-feminist movement (United States). In: D. A. Snow, D. della Porta, B. Klandermans, & D. McAdam (Eds.), The Wiley-Blackwell encyclopedia of social and political movements. Wiley-Blackwell, 2022.
CABRAL, Eula Dantas Taveira. Cultura, comunicação e informação na era digital. Fundação Casa de Rui Barbosa, 2021.
CAMPAGNOLO, Ana Caroline. Feminismo: Perversão e subversão. Vide Editorial, 2019.
CAMPAGNOLO, Ana Caroline. Guia de bolso contra mentiras feministas. Vide Editorial, 2021.
CAMPAGNOLO, Ana Caroline. O mínimo sobre feminismo. O Mínimo Editora, 2022.
CAZETTA, Felipe. Intelectuais conservadores e a luta pelo poder: Le Bon, Sorel, Action Française e Integralismo Lusitano. História, 1–24, 2017.
FALUDI, Susan. Backlash: O contra-ataque na guerra não declarada contra as mulheres. Ricco, 2001.
FURLANI, Danielle. A reação ao totalitarismo feminista: Uma análise da retórica antifeminista de Ana Caroline Campagnolo. 2024. (Dissertação de mestrado). PPGS/UFF, Niterói, 2024.
GALETTI, Camila. Feminina sim, feminista não: uma análise das deputadas federais antifeministas de extrema direita na 56o Legislatura. (Tese de doutorado), PPGS/UNB, Brasília, 2024.
JASPER, James. Protesto: Uma introdução aos movimentos sociais. Zahar, 2016.
MARTINEZ, Monise. Antifeminismos cristãos e produção de subjetividades: pós-feminismo, autoajuda e moral religiosa no Godllywood Brasil. Debates do NER, Porto Alegre, 2026.
ROCHA, Camila. Menos Marx, mais Mises: O liberalismo e a nova direita no Brasil. Todavia, 2021.
TESSER, Tabata. Antifeminismos e religião: trajetórias e disputas de deputadas católicas na arena legislativa. Debates do NER, p. 13-49, 2024.

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