Arte viva: A noite estrelada de barriga para cima

Veja muito bem isto, leitor(a). É possível que a crueldade e a falta de empatia do ser humano com seus semelhantes possa ter começado há aproximadamente 2,4 milhões de anos, quando o homo habilis afiou pedras para cortar carne de outras espécies, e as testou antes no próprio clã. Muito punk o habilis.
E também é dado antropoarquelógico que há 400.000 anos nossos ancestrais criaram lanças afiadíssimas. E que também as testavam em seus iguais. E que foi deste violento passado remoto punk que surgiram as mitologias de deuses carnívoros, que saciavam suas gulas devorando humanos. Annunakis?
O escritor Júlio Cortázar foi o que melhor mostrou este sadismo primitivo na vida contemporânea. No conto "a noite de barriga para cima", um homem de moto é atropelado pelo sadismo do trânsito. No hospital, ele sonha que é um ancestral sendo agredido por outro. Acorda e percebe que ele é o ancestral. E que o acidente é o sonho.
Lembro de um escritor meu amigo e sua experiência com o sadismo primitivo no presente. Ele era colunista de um portal jornalístico alimentado diariamente por bolsistas. Uma bolsista, por algum motivo de mau-gosto, não gostava da literatura dele. E por sadismo primitivo no presente, resolveu "atacá-lo"!?
A bolsista era aprendiz de jornalista, mas já dominava as técnicas de sadismo subliminar editorial e iniciou perseguição obsessiva contra ele. Usou aquilo que os manuais definem como justaposição editorial, enquadramento (framing), associação implícita, insinuação, desqualificação indireta e indução indireta à associação subliminar por aproximação.
De forma recorrente e seletiva, sempre que o escritor/jornalista publicava seu artigo, ela colocava matérias com títulos, legendas e chamadas sobre machismo próximos ao artigo dele. Para forçar uma associação subliminar negativa dele com o machismo ao leitor ou leitora. Tática diabólica para sabotar sua credibilidade.
Mas ele é gay, militante lgbtqiapn+, antipatriarcal, antimachista e anti heteronormatividade. Casado. O marido dele é advogado. Descobriu jurisprudência consolidada que bastavam três justaposições editoriais para caracterizar má-intenção, má-fé, stalking, perseguição obsessiva, discriminação. E ajuizou.
A proximidade visual recorrente entre os artigos do escritor e as matérias sobre machismo colocadas pela bolsista-editora foi a prova que havia intenção de manipular o leitor por livre associação induzida contra ele. A juíza penalizou a bolsista a publicar artigos sobre técnicas de manipulação editorial. As noites continuam de barriga para cima. Mas Cortázar as ilumina.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.




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