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Literatices: A Inconfidência Mineira do Século XX

Foto do escritor: Wander Lourenço
Wander Lourenço
há 17 minutos
6 min de leitura

Após leitura dos anais da História pátria sobre o período do Brasil Colônia, pude observar que há quem diga que não houve propriamente Inconfidência –– mire e veja: nada a ver com o posicionamento da extrema direita, nostálgica da supressão dos Direitos Fundamentais, do exílio forçoso e involuntário e da tortura em que em “toda carne se trai”, que apregoam que jamais houve Ditadura Militar pós-Golpe de 1964 ––; e, sim, Conjuração Mineira, haja vista que, caso denominássemos os rebelados teóricos de Vila Rica como “inconfidentes”, nós estaríamos praticando uma distorção política mui benéfica à Coroa portuguesa, que nos administrou regiamente de 1500 a 1822, embora também exista uma corrente histórico-filosófica que avente não ter havido colonização por parte da Metrópole ultramarina. Destarte, acaso insistíssemos na menção à Inconfidência Mineira, deporíamos nós contra a legitimidade da reivindicação dos latifundiários e donos de minas de pedras preciosas –– ouro negro e branco de aluvião, diamantes da região da região do Serro do Frio, terra natal da inigualável Xica da Silva, esmeraldas e topázio imperial etc. ––; funcionários públicos do mais alto escalão da administração régia –– ouvidor e juiz de comarca; contador e secretário do Governo da Capitania de Minas Gerais; tenente-coronel, alferes e dragões do Regimento Regular de Cavalaria de Minas; e religiosos das Ordens Terceiras e das Irmandades Leigas da Santa Madre Igreja, que pregavam a independência da colônia mais próspera do Reino de Portugal e dos Algarves, mediante a coerção dos impostos exorbitantes, a partir do enforcamento pecuniário oriundo do regime feudal ibérico instituído pelo Quinto d’Ouro.


Deu-se a Levante das Minas Gerais.


Não obstante, no terceiro quartel do século XX, mais especificamente nas décadas de 1960 e 1970, em pleno reinado de Vossa Majestade Richard Nixon, o Tricky Dick, houve outra Insurreição de cunho literomusical de suma importância para a História da Música Popular Brasileira, que não fora concebida ou arquitetada nas propriedades rurais das circunvizinhanças das cidades históricas de Vila Rica d’Ouro Preto, da Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo (atual Mariana) ou do Arraial de Santo Antônio do Tejuco (atual Diamantina). A esta Revolução denominou-se Clube da Esquina, originada nos armazéns e praças públicas do bairro boêmio de Santa Tereza, a Santê de Belo Horizonte, por alguns hippies cabeludos idealistas e psicodélicos, que pregavam a Paz, o Amor e a Liberdade, sob a égide de uma espécie de Joaquim José da Silva Xavier hodierno, reconhecido por Milton Nascimento, o Tiradentes Negro.


Neste contexto neo-arcade, assim como o bardo Tomás Antônio Gonzaga se disfarçou de pastor de ovelhas autointitulando-se Dirceu de Marília, o líder do movimento de independência estética, em diálogo com o Manifesto Antropófago de 1928, disseminado pelo bandeirante paulista Oswald de Andrade, forjou a sua assinatura onde adotou o pseudônimo Bituca das Minas Gerais. Em seu pastoreio vocal, os cânticos do sedicioso Milton Nascimento, através de seu pasquim harmonioso que prenunciava a boa-nova das ermidas, das senzalas e dos becos do antigo Curral d’El-Rey, ganhou proporções de uma universalidade que se expandiu, qual ouro extraído à flor da pele negra no Ribeirão do Tripuí, por entre espaços, fronteiras e cronologias:


Eu sou da América do Sul


Eu sei, vocês não vão saber


Mas agora sou cowboy


Sou do ouro, eu sou vocês


Sou do mundo, sou Minas Gerais.


Cabe explicitar ao(à) Leitor(a) que o mitológico greco-romano-mineiro, o El-Rey Milton Nascimento I, tal qual o alferes Tiradentes também percorreu o Caminho Real do Ouro entre a Capitania de Minas Gerais e a Nossa Senhora dos Remédios de Paraty, até esbarrar na Corte de São Sebastião do Rio de Janeiro, de onde outrora se despachava o carregamento de pedras precisas em direção ao Porto do Restelo de Belém, decantado n’Os Lusíadas por Camões. Entretanto, em suas caravelas imaginárias, o soberano Bituca das Minas Gerais carregava consigo a toada berrante e revolucionária de comunhão pós-barroca, situada entre o sacro e o profano; inefável e o perceptível; o local e o mundano. Todavia, consoante preveniu Drummond de Andrade, a sua Minas já não mais havia, de sorte que o inimigo não trajava a farda lusitana do período pombalino, porque, na insurgência dos artilheiros do Clube da Esquina, mirava-se contra a dinastia absolutista da Bossa Nova, orquestrada pelo governador-mor da República, João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira; pelo ministro do Tesouro e Fazenda, o cravista Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom Jobim; e pelo embaixador de Estado dos Negócios Estrangeiros, Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, o Poetinha e Visconde de Ipanema, acompanhado dos asseclas Ronaldo Bôscoli, subsecretário da Guerra; e dos comendadores Roberto Menescal e Carlos Lyra, ambos apaixonados pela musa amada Dona Nara Lofego Leão, a Arquiduquesa do Espírito Santo, que, no entanto, como na Quadrilha do trovador itabirano, não amava ninguém porque o fidalgote Carlos José Fontes Diegues, o Conde das Alagoas, ainda não tinha entrado na história.


Neste contexto de embate contestatório de remissão, o Levante de Minas, como também ficou conhecida a profusão de ritmos e sonoridades oriundos do Clube da Esquina, diz que esboçada, teoricamente, pelo jurisconsulto das ideias recônditas entranhadas na aristocracia mineira e herdeiro latifundiário do vocábulo em mineiração de lirismos, o gentil-homem d. Fernando Brant, cuja representação era idêntica à função exercida pelo sonetista Cláudio Manuel da Costa, na antiga conspiração do século XVIII. Destarte, diz que o responsável pela autoria e assinatura apócrifa das Cartas Chilenas contemporâneas, o porta-voz Brant, assessorado pelos escrivães Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Murilo Antunes, decretou por escrito guerra aos bossanovistas, representantes do pode republicano vigente. Não obstante, nos tempos hodiernos, o estopim brigante e sangrento se dera por mera motivação refratária ao imposto extorsivo denominado Quinto da Bossa Nova, que era a galinha dos ovos de ouro da mídia norte-americana; e, posteriormente, japonesa, no tocante à arrecadação dos royalties estéticos aos cofres públicos da posteridade.


Inconformados com o predomínio despótico da Santíssima Trindade da Bossa Nova, entretanto, o Tiradentes Negro convocou uma reunião conspiratória, com o bispo-maestro Dom Wagner Tiso; com o gênio das cordas de aço Toninho Horta; com o soberbo harmonizador Lô Borges; e com o visionário multi-instrumentista Beto Guedes, a se realizar na estância do senhor de engenho Nelson Ângelo, a Fazenda Redemoinho dos Ventos. Na assembleia solicitada, o insurgente El-Rey Milton Nascimento I discorreu sobre a real necessidade de não mais se pagar tributos tão exorbitantes ao mandatário oriundo de Juazeiro-BA, o presidente da República d. João Gilberto I, visto que a dinastia da Bossa Nova se renderia aos membros inconfidentes do Clube da Esquina, que exigiam a independência das Minas Gerais como Estado-Nação, cujo patrono houvera de ser o artífice proletário Antônio Francisco Lisboa, o Mestre Aleijadinho.


— Libertas quae sera tamen. — bradou d. Fernando Brant. O histórico grito do Ipiranga proferido por El-Rey Milton Nascimento I, às margens do Rio Doce, ecoara, esplendidamente, por todo Brasil profundo dos sertões rosianos aos territórios inóspitos da América do Sul. Contudo, quando os ruídos das cornetas e das estradas se achegaram aos ouvidos do mercador d. João Gilberto I, por intermédio dos sussurros afinados de Condessa Elis Regina ao pé do ouvido do Imperador, de imediato, o reinante bossanovista despachou ao Conselho Judiciário do Supremo Tribunal Federal do Cancioneiro Pátrio (STF-CP), que era composto pelo d. Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, Marquês de Piedade;  pelo fazendeiro marítimo e navegante d. Dorival Caymmi, o Visconde de Maracangalha; e pelo honorífico capitalista Ary Barroso, o Duque de Ubá.


Decretou-se a Devassa da Música Popular Brasileira. Nada obstante, os amotinados mineiros se homiziaram nas sesmarias niteroienses de Piratininga, na antiga propriedade do Cacique Martim Afonso de Souza, o Araribóia, a fim de que conjugassem o ideário intrigante aos quatro cantos dos confins do Reino Unido de Portugal, Algarves e Brasil. Neste ínterim, as tropas luso-brasileiras lideradas pelo arcabuzeiro Bôscoli; secundado pelo sargento de ordenanças Menescal; e pelo cabo de guerrilha Lyra descobriram o esconderijo dos subversivos mineiros, cercando-os entre a Lagoa do Cafubá e o Oceano Atlântico. Por sorte, as naus-caravelas conduzidas pelo almirante de Mar e Guerra, Luís Otávio de Melo Carvalho, o Tavito, guarnecidas pelos artilheiros Flávio Venturini e Tavinho Moura, que se aproximaram, providencialmente, para resgatá-los da investida blim-blom de guerrilha urbana.


Em meio ao fogo cruzado, os geralistas bateram em retirada estartégica até aportarem no Cais Pharoux, de modo que se preparassem para o episódio final, conhecido como Batalha de Maracanã-mirim. Na peleja homérica, o emblemático El-Rey d. Milton Nascimento I, em disfarces de nereida apolínea, com o adjutório de seus aliados antropófagos do Clube da Esquina, sobrepujou os mandatários bossanovistas, com o seu canto de Liberdade, mavioso, sacro e sedutor, que hipnotizou a assistência abismada e silente, entronando-se na mitologia afro-brasílica, às margens da Baía de Guanabara, com o hino da Revolução das Minas Gerais, de autoria de Bituca e Brant.


Solto a voz nas estradas


Já não quero parar


Meu caminho é de pedra


Como posso sonhar?

Sonho feito de brisa


Vento, vem terminar…


Autor: Wander Lourenço  

Membro da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), do Pen Clube do Brasil e da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ). Docente Externo Permanente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), pesquisador de Pós-Doutorado em Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa – Portugal; de Pós-Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO; e pesquisador de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Minas gerais – UFMG. Doutor em Literatura Comparada (UFF).

Diretor dos documentários "Carlos Nejar, o Dom Quixote dos Pampas" (2015); "Nélida Piñon, a dama de pétalas" (2017); "O Cravo e a lapela – vida e obra de Ricardo Cravo Albin" (2021). Autor de livros e idealizador do programa de entrevista Literatices.


 
 
 

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