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Literatices: Quem Matou Stefan Zweig?

Foto do escritor: Wander Lourenço
Wander Lourenço
13 de out.
5 min de leitura

Em Stefan Zweig deve morrer (Editora Minotauro/Almedina) –– romance histórico de autoria do escritor, docente, latinista, editor e colunista de Etimologia da Rádio BandNews, o impagável e indescritível Deonísio da Silva, doutor em Letras pela USP, membro da Academia das Ciências de Lisboa, da Academia Catarinense de Letras e do Pen Clube do Brasil, além de vice-presidente da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL) ––, originalmente publicado como Lotte & Zweig, em 2012, a narrativa da obra contemporânea parte do emblemático suicídio do autor de origem austríaco-judaica Stefan Zweig; e de sua segunda consorte, Charlotte “Lotte” Altmann, encontrados sem vida em fevereiro de 1942, em pleno contexto da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). Mas alto lá, caríssimos Leitores e Leitoras, não me interpretem mal; aliás, como o fazem com os ministros do STF, por eu deliberar informações biográficas sigilosas do intelectual Da Silva, o que, de certa maneira, como resposta ao título do artigo, poder-se-ia caracterizar estratégia de intervenção judicial para indiciá-lo como suspeito do suposto crime de morte, ocorrido no município de Petrópolis, Região Serrana do estado do Rio de Janeiro.


Quiçá, para decepção de parte do público leitor dado a uma teoria da conspiração, informo-vos que o escritor Da Silva nasceu em 24 de setembro de 1948; portanto, mais de seis anos após o episódio mal resolvido do “suicídio” de Zweig e Lotte, o que, obviamente, também descartaria a hipótese de testemunha ocular do fato histórico. Não obstante, haja vista que ninguém sairá impune desta história macabra, no decorrer da narração deonisiana, nota-se que se intercalam versões distintas do desenlace biográfico do autor de Brasil, país do futuro (Brasil, Ein Land der Zukunft) e de sua amada judia, a começar pelo questionamento sobre a comprovação oficial do governo Vargas, referendada pela biografia Morte No Paraíso. A Tragédia De Stefan Zweig, de Alberto Dines, de que houve, pura e simplesmente, constatação do duplo suicídio por ingestão de barbitúricos, motivado pela depressão de Zweig diante dos horrores do Nazismo e seus fantasmas holocaustos.


A obra de ficção assinada por Da Silva, entretanto, interpõe-se a partir de outra vertente de análise e interpretação que, decerto, irá impelir o(a) Leitor(a) a deduzir que a ficcionalização do drama vivenciado pela família Zweig servirá de palimpsesto para se desmascarar uma imposição ditada por interesses políticos de ordem diplomática entre Brasil e Alemanha, pré-adesão do país às Potências Aliadas (Estados Unidos da América, Reino Unido, França, União Soviética etc.). Por esta linha de raciocínio, a propagação do suicídio seria contestada pela segunda parte do livro Stefan Zweig deve morrer, de acordo com um suposto homicídio orquestrado, que abreviara a existência do escritor judeu de origem austríaca. Por um dos diletos subterfúgios narrativos da escrita contemporânea, o enredo da obra literária se estrutura pelo viés de uma voz narrativa em primeira pessoa; todavia, a narração se bifurcará por intermédio de uma onisciência a se equilibrar pelos parâmetros de um mistério à luz do Holocausto nazista. Neste contexto, a consoada deonisíaca (“Quando a Indesejada chegar / Não sei se dura ou coroável / talvez eu tenha medo”) de Zweig e sua musa amada se instaura pelas evidências da preparação para um suicídio anunciado por inúmeras missivas endereçadas a destinatários mundo afora. Neste compasso, a História pátria há de sofrer com as investidas da ficção engendradas por Da Silva, mui apto ao afirmar que a ferramenta do escritor vem a ser a imaginação, conquanto não se admita a ingerência do bisturi verbal do artista do vocábulo em sua narratologia, ávido por interferir no amálgama nevrálgico do conflito étnico, de vez que a verossimilhança forjada por sua maestria possibilita a hipótese do duplo homicídio. De antemão, porém, deve-se, ao menos, se depreender que a escritura se predispõe a arraigar-se por uma tênue hermenêutica da suspeita, em diálogo com a ambiguidade que se intenta pela fresta do questionamento, referente ao ato de renúncia da vida praticado por um homem perseguido pelo antissemitismo perpetuado no cenário europeu.


Destarte, como poder-se-ia maquinar a identidade criminal da lide do caso concreto, sem se abster da insigne inclemência de historiadores e biógrafos de Stefan Zweig, autores de teses absolutistas não refratárias ao diagnóstico oficial assinalado pela perícia dos asseclas de Vargas e Hitler. Curiosamente, creio que não seria desperdício de causa afiançar que estas duas personagens históricas; digamos, por ironia do destino, o nacional-socialista Adolf Hitler e estado-novista Getúlio Vargas padeceriam com o estigma de um suicídio mal prefaciado por sobrescritos apócrifos... Em retorno ao livro de Da Silva, talvez seja de bom alvitre advertir que a dialética da sensatez não se ancora em cais de aviltamento. De outra feita, se as palpáveis diretrizes da narrativa que se interpenetram, no tocante à personalidade austríaca que preludia o suicídio e ao narrador que aventa a possibilidade do assassínio, por que considerar que o autor de Stefan Zweig deve morrer se responsabilizaria pela rubrica assinalada no laudo ou testamento, que aponta como causa mortis o suicídio de cunho político do ficcionista de estirpe hebreia? Neste sentido, caberia enfatizar que a percepção do(a) Leitor(a) se (des)equilibrará por sobre um picadeiro de suposições acrobáticas, para abarcar as múltiplas expectativas de um epílogo que, no mínimo, irá se escorar na conjectura da ambiguidade urdida pela perspicácia autoral de Da Silva. Muito provavelmente alguns incautos obterão a certeza de que a posição do alter ego se pautará pelas prédicas do homicídio contra a família Zweig; contudo, julgo que mais condizente seria afirmar que, com a proposição da discursividade malabarística que se alicerça pelo movediço espaço da dubiedade, o autor cariotarinense instigará o debate ao contraditório com requintes de subversão e complexidade. Por outro ângulo, o narrador irá inserir elementos fictícios para demonstração de uma trama alemã, capitaneada por Joseph, Frida, Helmut, Gustav etc., que captura o imaginário do(a) Leitor(a), municiado pelo direito à dúvida aristotélica ou machadiana.


Por fim, acrescenta-se a isto que uma terceira margem da voz narrativa, cujas menções entrelaçam os múltiplos discursos vigentes, que abarcam a organização discursiva, através de um tênue fluxo de consciência, provindo da configuração de Lotte, o que, aliás, pouco acrescenta à espinha dorsal da tessitura arquitetada pelas hábeis mãos de um fabulista em pleno domínio do exercício da técnica do romance moderno, no que tange ao desvendamento do Enigma indecifrável –– Quem Matou Stefan Zweig?


Autor: Wander Lourenço  

Membro da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), do Pen Clube do Brasil e da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ). Docente Externo Permanente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), pesquisador de Pós-Doutorado em Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa – Portugal; de Pós-Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO; e pesquisador de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Minas gerais – UFMG. Doutor em Literatura Comparada (UFF). Diretor dos documentários "Carlos Nejar, o Dom Quixote dos Pampas" (2015); "Nélida Piñon, a dama de pétalas" (2017); "O Cravo e a lapela – vida e obra de Ricardo Cravo Albin" (2021). Autor de livros e idealizador do programa de entrevista Literatices.


 
 
 

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