Literatices: Nelson Cavaquinho, Profissão Eternidade

Atualizado: 23 de set.
Creio que não haja justificativa cabível e argumentável –– nem o escândalo do Banco Master e a prisão de Daniel Vorcaro; a crise do STF e o duelo a punhal de prata entre Alexandre de Moraes e André Mendonça; a aposentadoria de Neymar Jr. da Seleção Brasileira; o filme “Dark Horse” (“Cavalo Paraguaio” em livre tradução) inspirado na vida e obra de Jair Bolsonaro; ou o intento de reeleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva ––, porque nada abona, afiança e avaliza a amnésia coletiva que tomou conta deste país (Mil vezes a insônia de Cem Anos de Solidão), diante de uma data tão importante e significativa para o cancioneiro popular nacional; e que, porém, passou despercebida por nós: 40 anos da morte de Nelson Antônio da Silva, o Nelson do Cavaquinho, como diria Cartola. Na madrugada de 18 de fevereiro de 1986, há quatro décadas, portanto, o Poeta do Juízo Final deixou-nos órfãos de sua sabedoria de vida; e, sobretudo, de sua poética melancólica e trágica à luz de uma voz roufenha, que se equilibrava na rudeza das cordas de seu violão magistral. Logo, há quarenta anos recém-completados, permitiu-se se “chamar saudade” o maior sambista de todos os tempos imemoriais desta pátria de chuteiras e microfones, o boêmio insuperável em sua generosidade e exímio violonista Nelson Cavaquinho, embora tenha religiosamente atrasado o relógio de sua residência durante anos, após premunição de um pesadelo que programava a sua partida, exatamente, às 3 horas da manhã.
Desta feita, quiçá, a displicência cronológica típica desta nação desmemoriada se alie ao mistério da existência deste gênio impagável do Samba Popular Brasileiro (SMB), desde a imprecisão da data de nascituro do compositor dos clássicos “Folhas secas” e “A Flor e o Espinho”, em parceria com o poeta Guilherme de Brito, haja vista que o nascimento do Profeta dos Desenganos se dera não se sabe ao certo se em 28 ou 29 de outubro de 1911, no aristocrático bairro de São Cristóvão, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Neste ínterim ambíguo, o herdeiro do tocador de tuba Brás Antônio da Silva, contramestre da Banda da Polícia Militar, e de Maria Paula da Silva, lavadeira do Convento de Santa Teresa, salvo engano viera ao mundo para se transformar em mito ou lenda do gênero musical, que se tornou a manifestação mais característica desta São Sebastião do Rio de Janeiro. Não obstante, se a data de nascimento já era uma incógnita ambulante, imagina-se a vida e obra deste notável bamba de Mangueira que, anos mais tarde, se tornaria o afamado Nelson Cavaquinho, em alusão ao instrumento que, por ironia do destino, não o tornaria célebre, já que, ao contrário de Paulinho da Viola que, contradição à parte, elegeu o cavaquinho como utensílio de estimação, o filho de Dona Maria e Seu Brás optou pelo violão, cujas cordas de aço eram, inconfundivelmente, manuseadas por apenas dois dedos de sua mão direita.
Entretanto, em sua biografia consta que, devido às dificuldades financeiras de sua família, o futuro Bardo de São Cristóvão abandonou os estudos primários para labutar na fábrica de tecidos São Félix associada ao Cotonifício da Gávea; e que, em 1931, próximo aos vinte anos, conheceu a sua primeira esposa Alice Ferreira Neves. O fato era que, pouco tempo depois, o galanteador Nelson Cavaquinho fora arrastado pelo pai da cabrocha à delegacia, unindo-se, forçosamente, àquela que lhe daria quatro filhos. Diante da necessidade de sustentar a família, graças a um pedido de seu progenitor que falsificara a idade do postulante a cavalariano, o soldado Silva ingressou nos quadros da Polícia Militar do Rio de Janeiro. De fato, o ofício de guarda de montaria causava certa desconfiança entre bambas e becos de Mangueira e adjacências, até que o Guarda-Belo conheceu Angenor de Oliveira, o Cartola, história que desvenda um dos maiores enigmas do mundo do samba: Por que não existem parcerias musicais entre os dois ilustres contemporâneos e assíduos frequentadores de um mesmo convívio social, o Morro de Mangueira?
Seria ciúme ou façanha de mulher; parada de jogo de baralho ou dados; discussão de bebedeira; natural rivalidade entre compositores de fina estirpe; ou incompatibilidade de gênios no sentido literal do vocábulo? Ainda que entremeadas, nenhuma das opções há de estar correta, pois reza a lenda que a razão da discórdia tenha sido uma prática a que Nelson Cavaquinho se habituara – a comercialização de samba, comumente exercida por compositores como Sinhô, Geraldo Pereira, Wilson Batista, Ismael Silva e até o próprio Cartola que, no entanto, exigia que o seu nome constasse nos créditos da música gravada, pelos ícones dos primórdios do Rádio, Mário Reis e Francisco Alves. Sobre esta negociação apócrifa, apenas para citarmos uma adjetivação coeva, inclusive, o portelense Paulinho da Viola compôs o samba intitulado “14 anos” em parceria com o saudoso Élton Medeiros: “Vejo um samba ser vendido / E o sambista esquecido / O seu verdadeiro autor / Eu estou necessitado / Mas meu samba encabulado / Eu não vendo não senhor.”
Em retorno à contenda entre Nelson Cavaquinho e Cartola, consta nos autos da oralidade sambista que o autor de “Luz negra” e “Minha festa” fez a primeira parte de um samba sofrível chamado “Devia Ser Condenada” (Devia ser condenada ou crucificada, / Pois juraste falso, / Beijaste a cruz do Senhor / E disseste que me tinha amor.”); e, ao encontrá-lo, perguntou se Cartola poderia acabar de escrever os versos e compor a melodia que havia iniciado ao violão. Visto que era comum no meio do samba que um compositor fizesse a primeira parte, melodia e letra; e o outro completasse a música e os versos iniciados pelo parceiro, Cartola aceitou a proposta de Nelson Cavaquinho, completando as estrofes finais (“E quando vejo a torre bem alta, / Daquela linda catedral, / Fujo da tua amizade / Infernal”). Desafio concluído, aquela que se tornaria a primeira (e única!) composição dos baluartes de Mangueira terminou em cantoria do samba e bebedeira até alta madrugada. No dia seguinte, contudo, Cartola se deparou com um sujeito, sargento de Polícia, por sinal, que lhe indagara se ele queria ouvir uma canção que era uma maravilha e tal. Que sim, disse Cartola. Mais que depressa, percebeu que o homem cantarolava a canção “Devia Ser Condenada”...
–– Alto lá, amigo!... – reagiu Cartola, ponderando que aquele samba era de sua autoria comprovadamente, ouvindo como resposta do “compositor” que a música era toda dele, porque havia acabado de comprar por “um bom dinheiro” do colega de farda Nelson do Cavaquinho. Ao interpelá-lo, Cartola dissera ao “comerciante de samba” que não queria mais assunto com o incauto parceiro de ocasião, porque fizeram a música juntos; e ele, Nelson, fora vendê-la sem a sua autorização etc. Cinicamente, o gaiato argumentou que estava sem dinheiro, mas mesmo assim jurou que só negociara a sua parte da composição: “O samba era nosso, mas a fome era minha.”
Noutra feita, o recruta Nelson Cavaquinho, ao encontrar o “parceiro” Cartola no Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, ficou um bom tempo de conversa até que o seu cavalo Vovô, que o aguardou pacientemente por um bom tempo do outro lado da quadra da escola de samba, desaparecera, resolvendo por conta própria retornar ao Batalhão, o que decerto ocasionaria mais uma de tantas outras detenções ao cavalariano Silva. Não obstante, quando confessou que havia perdido o animal, o superior hierárquico, imediatamente, apontou a cocheira com o nariz a mostrá-lo, o Vovô, cheio de alfafa e empáfia, como que rindo da situação. Estas e outras histórias do arco da velha compõem o fabulário do mestre mangueirense, tal como esta que nos reporta aos idos de 1955, quando, ao sair do Cabaré dos Bandidos em boa companhia de Guilherme Brito, o boêmio perdulário, que vagava pelas ruas da cidade aleatoriamente, resolveu distribuir todo dinheiro que possuía nos bolsos da calça aos mendigos e prostitutas do Centro da cidade. Talvez, para justificar os versos de seu samba antológico e profético: “Quando eu me chamar saudade”: “Sei que amanhã, quando eu morrer / Os meus amigos vão dizer / Que eu tinha um bom coração / Alguns até hão de chorar / E querer me homenagear / Fazendo de ouro um violão.”
Por fim, creio eu que devíamos repetir o gesto e o hábito do ilustre sambista de ludibriar o tempo, o que nos obrigaria a eternizá-lo muito além dos quarenta anos de seu falecimento, uma vez que se a morte não atrasa o relógio da existência, que nós, eternos admiradores de seu talento inenarrável, contemplemos em memória as composições interpretadas por aquele caboclo de madeixas prateadas, trajando terno roto e esfarrapado que te peço, por empréstimo, Nelson Cavaquinho, para estar a caráter na festa de gala que organizaste em nós.

Autor: Wander Lourenço Membro da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), do Pen Clube do Brasil e da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ). Docente Externo Permanente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), pesquisador de Pós-Doutorado em Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa – Portugal; de Pós-Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO; e pesquisador de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Minas gerais – UFMG. Doutor em Literatura Comparada (UFF). Diretor dos documentários "Carlos Nejar, o Dom Quixote dos Pampas" (2015); "Nélida Piñon, a dama de pétalas" (2017); "O Cravo e a lapela – vida e obra de Ricardo Cravo Albin" (2021). Autor de livros e idealizador do programa de entrevista Literatices.



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