Arte viva: Sarapitanga - uma história muito pra lá de secreta

"Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas"
(Manuel de Barros )
Há muito tempo evito escrever sobre arte por isto. Porque saturou ser o talvez contra o sim ou não, leitor(a). A incerteza deve ser o princípio de toda estética. E já não tenho mais saco para me opor as pessoas que escrevem sobre arte para provar por a+b que determinada obra é rigidamente de determinado jeito. Pra quê?! Tou fora.
Sou ficcionista, dramaturgo e poeta. Mas quando faço análise de uma obra de arte, geralmente parto de leituras anteriores, das camadas interpretativas. Mas ao ler o romance Sarapitanga, de Edir Meirelles, fiz o inverso: primeiro li e rascunhei. Depois li as apresentações escritas por Ivan Proença, Eurídice Hespanhol e Aidenor Aires.
Leituras literárias, hermenêuticas, finas, brilhantes. Mas farei dois acréscimos interpretativos. Um, estético-estilístico. Estilo de época. Outro, técnico. Modestos toques sobre estratégia narrativa. Observar ângulos que fazem da obra arte literária, e não jornalismo, ou ciência social ou filosofia ou panfleto de qualquer viés. Bora.
Vamos começar pelo começo: qual o tema e a visão de mundo que formam o conteúdo deste romance? Como Edir transformou este conteúdo em forma artístico-literária? Com qual estilo? Com qual técnica narrativa? O tema da trama é a história da colonização e descolonização da Ilha fictícia de Sarapitanga, no Pacífico.
A visão de mundo que mobiliza a narrativa é libertária e globalizada. Articula luta local com experiências históricas das civilizações de todos os continentes. O povo Urucutins,que lidera a descolonização, é carnívoro: come crocodilo,capivara, porco-do-mato, tatu, veado, peixe, lagarto, ovos. E frutas: abacaxi, araticum, bacupari, pitanga.
Os Urucutins faziam festas cerimoniais com rituais para celebrar alianças políticas. Rituais movidos pela bebida ayahuasca. Com muita etnomúsica, dança, cantos, pinturas, sagrações. Em um ritual para o aliado Araribango, ele bebeu ayahuasca, ficou doidão, dançou muito e disse que a viagem enteógena foi "inesquecível".
A forma literária com a qual o autor organizou este conteúdo foi o romance. O estilo é, digamos, o realismo mítico-mágico. Mítico porque o Deus e mito Potuí, objeto de rituais, faz parte e move o real. Mágico porque o mito não é "irreal", estranho à cultura, mas é parte viva da cultura. Real e "irreal" movem a trama.
A estratégia narrativa é polifônica. Polifonia de vozes das personagens em diálogo narrativo. O Prof. Affonso Lira conduz a voz narrativa em 1° pessoa. Sua esposa, a tradutora Érica, e o revolucionário sarapitanguês Masiero, em diálogos permanentes, movem a narrativa. É ficção. A verdade não sai do texto. Nada existiu. Arte.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 17/9/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.



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