Arte viva: Agosto a gosto_as fantasias contra os fantasmas
É verdade, leitor(a). Não há nenhuma comprovação científica sobre as lendas de agosto. E é melhor assim. Tiraria o sabor, o rumor, o mistério e a diversão. Mas é fato que no século XVI as caravelas trouxeram esta superstição lusa que agosto é o mês do desgosto. E os ventos Alísios Nordeste embalaram esta vibe lusa até agora. Bora.
Fui e sou velejador. Conheço a manha náutica. Como Camões e Hemingway. Agosto é o mês que os Alísios do Atlântico Sul estão mais fortes e constantes. E por isto era o mês que as caravelas de Sagres partiam de Portugal para o mundo. E por isto a canção "Casar em agosto traz desgosto". E trouxeram isso para o Brasil.
O suicídio do Vargas, a renúncia do Jânio e o passamento de Juscelino fizeram agosto e desgosto deixar de ser uma rima fácil. E neste agosto, como pimenta no molho, o presidente Lula fez declarações sobre a Guerra do Paraguai que desagradou àquele país. Tensões. Entrou para a fatura de agosto. Agosto é muito punk. Bora.
Fluxo energético. Evito. E prefiro olhar agosto não como substantivo. Mas como locução adverbial de modo, a gosto, conforme o gosto, algo opcional. Sim, com as precauções necessárias para que tod@s o atrevessem bem, com saúde, vida e paz. E que tod@s passem a gostar do agosto. Quer dizer: desmistifiquem, talvez.
E quando menos por isto também porque agosto surpreende com fatos suaves como o lançamento em agosto/1992 do romance Avante soldados, para trás, do escritor Deonísio Silva, sobre a saída do Brasil da Guerra do Paraguai. Ah: obteve o Prêmio Casa de Las Américas. Saramago presidiu o júri. Ventos Alísios.
Este agosto também surpreendeu. O Deonísio entrou no fluxo "agosto do bem" e fez a palestra "fantasmas e fantasias de agosto". Sobre o livro top. Foi organizada pelo Pen Club Brasil e o presidente Carlos Leal. Plateia plural de amantes da literatura. De embaixadores à poetas.(Ou vice-versa). Palavra feminina com crase. Onde dói?
Tal palestra ( erudita, brilhante, suave e cômica), pela circunstância deste agosto Brasil-Paraguai, foi portanto bastante oportuna. Deonísio revelou que a crise diplomática que gerou a guerra começou em agosto de 1864, as Tropas paraguaias invadiram o Brasil em 13 de agosto de 1865. É muito agosto para a gosto. Vibe.
Por isto, logo que o presidente Carlos Leal deu a palestra e o debate como encerrados, e logo após alguns belisquetes e drinques, um grupo de supersticiosos saiu voado à francesa para setembro _ ou melhor: para o restaurante Mané, na esquina do Pen Club / Praia do Flamengo. Eu e os escritores/intelectuais Wander Lourenço, Edir Meirelles, Chello d' Barros, Paulo Marinho e Barroco. Podem ler na ordem inversa para não ficar hierarquizado. Setembro. É sol de Primavera.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 3/9/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.

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