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Arte viva: Honestino: Let's play that

José Ribamar Mitoso
27 de ago.
2 min de leitura

 "E quando eu nasci/um anjo louco muito louco/veio ler a minha mão/ Esse anjo me disse,/ com um  sorriso entre dentes,/ vai, bicho, desafinar o coro dos contentes, / let´s play that"

( Let's Play That / Torquato Neto, poema inspiração da trilha sonora final do doc Honestino)

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Vou insistir, leitor(a). Há muito tempo evito escrever sobre arte. Sabe... dar palpite sobre o que outr@s criam?! Prá quê? E não é porque rouba o tempo dedicado às minha artes. É porque considero a análise da arte deselegante e inútil. A "crítica de arte" é ainda pior: é grosseira e incorreta. Abrigo de predador@s estétic@s. Tô fora!


É deselegante porque, mesmo com critérios estéticos, a análise  quase sempre está incompleta. Inútil porque o consentimento público para uma obra de arte existir não depende de critérios estéticos. Não é a escola, a universidade, a análise de arte ou os artistas que moldam o gosto. Ele é fabricado pelo mercado, com sua ideologia.


E tem mais: evito escrever sobre arte porque minha própria arte e meu pensamento têm  "um chama" para serem beliscados por tudo que é mente sombria. De direita, de esquerda, de cima, de baixo. Transversal, inclusive. Por mentes enferrujadas, com opinião enferrujada, sem estética, avessa ao criar fora da caixinha. 


Exemplo? Durante o lançamento internacional simultâneo de meu livro "Noturno Manauara" para os países lusófonos, a única pergunta não-literária veio do Brasil: por que no conto Tropical Úmida "tu brincas excessivamente daquilo" com uma espiã americana na Amazônia? Pergunte à voz narradora, ora. Onde dói?


Mas vamos brincar daquilo? Let's play that. Assisti no Cinesystem Belas Artes / Botafogo ao documentário Honestino, do cineasta Aurélio Michiles. Documentário, não docuficção. Doc criado a partir de brilhante pesquisa e mobilização cênica de panfletos, arquivos, carta e depoimentos. Há poucas cenas interpretadas por ator.


O doc tem apenas uma voz narrativa, que controla a câmera, a narrativa, a edição dos fatos e a verdade. Ele não é polifônico. As vozes que sustentam a narrativa são alinhadas com a personagem da luta armada. Não há vozes dos grupos que usaram a tática da luta democrático-popular, nem dos oráculos do regime.


A direção de cena, a edição, a fotografia e a trilha sonora são de alto nível técnico. O doc é um legítimo herdeiro de A Queda da Dinastia Romanov (1918), da genial cineasta russa Esfir Shub, de Nanook, o Esquimó (1922) /Flaherty, de O Homem com a Câmera (1929)/Dziga Vertov e de Woodstock (1970)/Michael Wadleigh.


Em tom lírico-sentimental, o doc descreve a personagem Honestino. Bonito, inteligente, corajoso, namorador e que lia Drummond. Gostava de yoga, praia, futebol. Amava o pai. Sabia trocar fraldas. Casou duas vezes. Era guerrilheiro da Ação Popular Marxista-Leninista. Estética realismo-socialista. Personagem positiva. Brilhante direção.



Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.       


Rio de Janeiro (RJ), 27/8/2026.


*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva

 
 
 

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