Arte viva: As impronunciáveis canções da cabeça de serpente emplumada
"Monólogo a duas vozes; a três vozes; quatro ou nenhuma. Hidra, melro, drone, apicum: qual é a minha voz?"
(Cláudio Daniel, Canções Impronunciáveis, in "Cabeça de Serpente Emplumada").
É verdade que talvez eu possa estar enganado, leitor, e quase sempre estou, leitora. Mas, para mim, que fui crítico de arte, toda análise de arte é insuficiente e ilusória. Calma. Não estou dizendo inútil. Mas reduz uma vida e uma obra a algumas palavras. É injusto. Mas pode linkar o público com gênero, forma, estilo e linguagem.
Não sou daqueles como Francis Hutcheson, Kant, Benedetto Croce ou Roland Barthes que supõem que o belo é subjetivo. Depende de sentimento, prazer sensorial, aprovação, juízo estético, gosto. Que é a mente bela que põe beleza nos objetos, e que, portanto, "gosto não se discute" e estamos conversados. Cascata.
Também não creio que o belo é apenas objetivo. Como queriam, cada um ao seu modo, com objetividade ideal, sacra, matemática ou estética, Platão, Santo Agostinho, padre Yves-Marie André ou Roman Ingarden. Perfeição, simetria. Cascata. Diderot, Lukács, Dufrenne e Eco sugeriram relação entre mente e objeto.
Não sei porque, mas estes devaneios estéticos foi o caminho tortuoso que achei para dizer que o diálogo entre interpretações foi a porta pela qual entrei no livro Cabeça de Serpente Emplumada (2025), do poeta Cláudio Daniel. Diálogo interpretativo com a poeta/pesquisadora Susanna Busato e com o Prof C. Perrone.
Antes das leituras, e em nota do autor, Cláudio diz que o livro é uma "Experiência estética". Performance. Literatura / Artes Visuais/Jazz Music. E que a Dicção poética é diferente dos livros anteriores. Reinventou os estilemas da primeira lírica (livros anos 90/ 2000). Mas manteve a coerência poética. E o impulso político Blue.
Na apresentação, Susanna Busato informa que o "leitmotiv" do poeta são sociedades ancestrais e contemporâneas vandalizadas por violências colonialistas. Astecas. Palestinos. Que o título remete a Quetzalcoatl, Deus asteca do vento, do ar e da aprendizagem. E que a écfrase é a figura de linguagem imagético-verbal central.
O professor Charles avalia que os versos têm preocupação transnacional, consciência musical, concisão, elipses, fragmentação, imagética. Simmmm. E eu? Semi-ótico. Eu procurei o vento, o ar e a aprendizagem do Deus asteca na poesia de Cláudio. "Na esquina dos ventos/formigas míopes avançam/ no sentido anti-horário".
Mais: "O vento-lamento/sacode as árvores/ folhas-suspiros/ecoam no silêncio". Transcreve o Ar de Vallejo: "Há um vazio no meu ar metafísico/que ninguém há de apalpar". - Ao mesmo tempo místico, e revolucionário, Cláudio revoluciona antes a linguagem para, "se, talvez, entretanto e quase", depois revolucionar o que sobrar.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 20/8/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.


Um encanto, apesar de se alçar aos páramos do Conhecimento, pois lançou asas aos mortais que o acompanharam com todo o deleite. Obrigada 🌷