top of page

Arte viva: As impronunciáveis canções da cabeça de serpente emplumada

José Ribamar Mitoso
20 de ago.
2 min de leitura

"Monólogo a duas vozes; a três vozes; quatro  ou nenhuma. Hidra, melro, drone, apicum: qual é a minha voz?"

(Cláudio Daniel, Canções Impronunciáveis, in "Cabeça de Serpente Emplumada").

    É verdade que talvez eu possa estar enganado, leitor, e quase sempre estou, leitora. Mas, para mim, que fui crítico de arte, toda análise de arte é insuficiente e ilusória. Calma. Não estou dizendo inútil. Mas reduz uma vida e uma obra a algumas palavras. É injusto. Mas pode linkar o público com gênero, forma, estilo e linguagem.    

    Não sou daqueles como Francis Hutcheson, Kant, Benedetto Croce ou Roland Barthes que supõem que o belo é  subjetivo. Depende de sentimento, prazer sensorial, aprovação, juízo estético, gosto. Que é a mente bela que põe beleza nos objetos, e que, portanto, "gosto não se discute" e estamos conversados. Cascata. 

    Também não creio que o belo é apenas objetivo. Como queriam, cada um ao seu modo, com objetividade ideal, sacra, matemática ou estética, Platão, Santo Agostinho, padre Yves-Marie André ou Roman Ingarden. Perfeição, simetria. Cascata. Diderot, Lukács, Dufrenne e Eco sugeriram  relação entre mente e objeto.

    Não sei porque, mas estes devaneios estéticos foi o caminho tortuoso que achei para dizer que o diálogo entre interpretações foi a porta pela qual entrei no livro Cabeça de Serpente Emplumada (2025), do poeta Cláudio Daniel. Diálogo interpretativo com a poeta/pesquisadora Susanna Busato e com o Prof C. Perrone.

  Antes das leituras, e em nota do autor, Cláudio diz que o livro é uma "Experiência estética". Performance. Literatura / Artes Visuais/Jazz Music. E que a Dicção poética é diferente dos livros anteriores. Reinventou os estilemas da primeira lírica (livros anos 90/ 2000). Mas manteve a coerência poética. E o impulso político Blue. 

    Na apresentação, Susanna Busato informa que o "leitmotiv" do poeta são sociedades  ancestrais e contemporâneas vandalizadas por violências colonialistas. Astecas. Palestinos. Que o título remete a Quetzalcoatl, Deus asteca do vento, do ar e da aprendizagem. E que a écfrase é a figura de linguagem imagético-verbal central.

    O professor Charles avalia que os versos têm preocupação transnacional, consciência musical,  concisão, elipses, fragmentação,  imagética. Simmmm. E eu? Semi-ótico. Eu procurei o vento, o ar e a aprendizagem do Deus asteca na poesia de Cláudio. "Na esquina dos ventos/formigas míopes avançam/ no sentido anti-horário".


Mais: "O vento-lamento/sacode as árvores/ folhas-suspiros/ecoam no silêncio". Transcreve o Ar de Vallejo: "Há um vazio no meu ar metafísico/que ninguém há de apalpar". - Ao mesmo tempo místico, e revolucionário, Cláudio revoluciona antes a linguagem para, "se, talvez, entretanto e quase", depois revolucionar o que sobrar.

Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.       


Rio de Janeiro (RJ), 20/8/2026.


*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva

 
 
 

1 comentário


karlasantanna
20 de ago.

Um encanto, apesar de se alçar aos páramos do Conhecimento, pois lançou asas aos mortais que o acompanharam com todo o deleite. Obrigada 🌷

Curtir
bottom of page