Arte viva: Literatura no rastro encantado da cobra grande Oiapoque
Atualizado: 14 de ago.
"- Vovó! Vovó! Está dormindo? Vóooo!
- Psiu! Menina, deixa sua avó dormir, disse a mãe de Cinha.
- Mas ela me prometeu contar a história da cobra grande.
A avó, dona Anica, ainda não dormia. Ela tossiu levemente e começou a contar a história."
Neste pequeno trecho, no qual quem escreve a fábula põe duas vozes narradoras para iniciar uma narrativa de ficção, há vários elementos técnicos que estruturam uma narrativa de literatura de arte. Elementos usados com habilidade técnica e criatividade suficientes para disparar uma narrativa sedutora, capaz tanto de capturar a atenção de quem a lê, como de se tornar obra de arte, e não etnologia ou folclore.
Como estratégia narrativa para iniciar a ação, para colocar a trama em movimento e para encaixar estruturalmente as duas histórias que compõem o enredo, a escritora Lucia Tucuju pôs a primeira voz narradora para construir um "triálogo" entre três personagens, digamos assim. Um diálogo direto entre duas personagens, mãe e filha, sobre uma terceira personagem, a avó. Avó que a voz narradora da primeira história logo faz aparecer na trama para substitui-la na condução da narrativa e contar a segunda história, a história principal, a história da cobra grande.
Vamos lá, leitor(a). Vamos ler literatura como arte, ler aquilo que a faz ser arte, ler a sua forma, a estrutura que a compõe. Ler seu estilo também. Isto: para fortalecer a literatura indígena como arte é preciso revelar suas estruturais formais e seus estilos. Mas vamos devagar, beleza? Vamos começar pela parte externa ao livro e à narrativa. Depois voltamos à literatura. De boa?
A escritora que põe as duas vozes narradoras para narrar é a indígena Lucia Tucuju, descende do povo Galibi, linhagem Marworno, do Amapá. Ela é escritora, roteirista, atriz, narradora de histórias, professora de literatura indígena em vários programas de pós-graduação. Portanto, conhece muito bem o ofício de narrar literatura de ficção. Sabe o que faz.
As ilustrações, que associam a literatura às artes visuais para dar imagens às palavras, é de Angela Carneiro. Artista plástica brilhante e emérita professora de Desenho Artístico da FAU/UFRJ. O livro "A tristeza que virou rio" (2025) nasceu desta sinergia criativa.
Agora vamos voltar à literatura. Vejam bem, leitor(a)(s)! Estranhamente, a literatura indígena tem sido percebida apenas como memória, como identidade cultural, como afirmação étnica ou como material de ensino da língua. Nunca como literatura, porque não se fala em estilo literário. Isto, no fundo, mesmo que fortaleça o seu papel cultural, diminui o valor da literatura indígena como arte, pois oculta o seu valor estético- estilístico.
Debates teóricos são chatérrimos, não é verdade? Eu sei. Mas o que que eu posso fazer? Paciência. Chega de exotismos. Literatura indígena é arte literária. Ou não? Tenha calma. Este é um site acadêmico. Mas para não fustigar a sua paciência com palavrórios pedantes, vou direto ao foco. Já falei da estrutura formal da narrativa. Agora vou ao estilo. Como pergunta. Sem impor.
Na narrativa/fábula de Lucia Tucuju predomina o realismo fantástico? As duas vozes narradoras hesitam em acreditar que os Caruanas realizaram o pedido de Adejaci e a transformaram em Cobra Grande? Hesitam em acreditar que depois, desiludida, Adejaci foi morar em um rio, Oiapoque, o Rio da Cobra Grande?
Predomina o estilo surrealista? Os fatos míticos e sobrenaturais da narrativa fazem parte do cotidiano cultural Amazônico ou são forjados? Eles não fazem parte das culturas indígenas Amazônicas e nem de nenhuma outra cultura?
Predomina o estilo real maravilhoso dos contos de fada? Os acontecimentos sobrenaturais ou míticos são narrados pela primeira voz narradora e pela D. Anica, vó de Cinha, como estranhos ao cotidiano da cultura delas?
Predomina o realismo mágico? Os seres míticos e os acontecimentos sobrenaturais da narrativa são narrados como parte da realidade cultural da Amazônia? São parte da vida cultural normal do povo da escritora e das duas vozes narradoras? Na Amazônia, ocorrem acontecimentos iguais aos das duas narrativas encaixadas para criar a fábula?
Que tal, leitor(a)? Deu para polir as lentes de seu olhar? Leia o livro e perceba a estrutura formal e o estilo. Leia o livro com olhos literários. Mas frua, apenas. Sem julgar. Tente perceber antes de tudo a estratégia narrativa da forma literária e o estilo artístico. Após curtir a forma, curta o conteúdo. Veja como se encaixam. Isto é a arte da leitura de uma obra de arte. Seja feliz. Arte Viva.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 13/8/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.


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