Arte viva: a HQ indígena contemporânea e os artistas-caçadores paleolíticos
- José Ribamar Mitoso
- há 43 minutos
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Quem criou a arte , leitor e leitora? Não foi o arquiteto egípcio Imhotep, nem o poeta sumério Gilgamesh e nem o escultor sumério Gudea. Foram os homo sapiens caçadores do Paleolítico digamos Médio. Talvez ancestrais dos atuais africanos Khoisan. 100.000-75.000 a.C. Gravuras em ocre, Caverna de Blombos, África do Sul.
O modo de produção determina o modo de civilização (Grosse, 1894). Os caçadores precisavam de observação e técnica. Para caçar e criar armas. E criar esculturas, pinturas e HQ nas paredes, com cenas da caça. Arte democrática. Involuímos. Eram globalizad@s. Pintaram em Lascaux (Fr) e na Serra da Capivara (Br). Que tal, leitor(a)?
Esta é a origem. Homo sapien sapien. Antes das divisões e da diversidade étnico-civilizatória. Cenas de caça. Pinturas na Caverna de Chauvet(França), há 36 mil anos. O relevo da rocha como técnica para criar volume nas formas. Pop-art. Show. Lascaux (França), há 17 mil anos . "Salão dos Touros". Cores quentes. Fauve. Matisse.
Brasil entrou no jogo. Há 25 mil anos.
Serra da Capivara, Boqueirão da Pedra Furada (Pi). Técnica: pigmentos coloridos de óxido de ferro e caulim. Cola: Gordura animal, clara de ovo, resina vegetal. Pincel: fibra vegetal e pelo. Suporte: Paredes e tetos de abrigos rochosos de arenito. Cenas de caça, dança e...sexo! (o quê?!)
Na origem ancestral das HQ 's, a arte era humana, e não expressão de classes ou etnias. E expressão coletiva. Ainda não havia sido capturada pela divisão social do trabalho: o artista cria o produto e o "resto" consome. O Rodolphe Töpffer ainda não havia criado as HQ modernas com quadros e texto na Histoire de M.Jabot (1827/30).
Quando li a antologia de HQ indígena "Territórios Compartilhados" (2025), percebi a maturidade estética e epistemológica dos autores que a criaram ao dialogarem com a tradição. Sem submissão estética colonizada, mas também sem a pretensão de "capturar" uma arte criada pelo homo sapien e por egípcios, maias, japoneses.
O livro foi financiado pelo Itaú Cultural. Não darei spoiler para não quebrar a magia do encanto do contato leitor/obra, sem intermediários. E para não colonizar o gosto de ninguém. O livro de forma artística HQ tem muitos autores, gêneros, estilos, linguagens. Prefácio de Daniel Munduruku. Arte é estilo. Variação estilística é mérito.
Realismo mítico: Merremii Jaguaribaras. Mítico vegana: Genilson M'bya/Moara Tupinambá. Tecno-mítico: Marcela Poenna e TAI. Realismo crítico: coletivo acessibilindígena. Realismo épico: Nathalia Kariri/Caio Ananias. Realismo mítico: Pö Eá Borum Krenak. Indígena futurista: Anapuaka Tupinambá. Arte antes de tudo. E indígena.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 30/7/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.


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