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Literatices: Ai meu Deus, que saudades de Mário Lago!...

Foto do escritor: Wander Lourenço
Wander Lourenço
15 de set.
4 min de leitura

Atualizado: 17 de set.

Em O nascimento da crônica, o ficcionista Machado de Assis ressalta que o meio certo de iniciá-la deve ser por intermédio de uma trivialidade; porém, peço permissão ao autor das Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro para, cortesmente, desobedecê-lo ou contrariá-lo, ainda que seja uma trivialidade lírica, que fez com que estas mal traçadas linhas se principiassem através de uma em homenagem ao ator, dramaturgo e radialista Mário Lago, ilustre compositor do clássico “Covardia”, antológica parceria com o inspirado Ataulfo Alves, responsável também pela assinatura de "Ai, que Saudade da Amélia" e "Atire a Primeira Pedra". Dito isto, como diria Machado, reporto-me às Leitoras desta crônica, para exaltar a interpretação magistral da cantora Mariana Bernardes, herdeira fidedigna de Marcelo Bernardes, o Mago dos Sopros, que regravou, lindamente, a canção de desamor “Covardia”, com a dignidade de representação que não há de dever nada à magnífica Zezé Gonzaga ou à polifônica Roberta Sá, razão do lirismo da desobediência ou contrariedade ao mestre Machado de Assis.    

A célebre sobriedade de execução da intérprete Mariana Bernardes impulsionou-me ao túnel do passado que me transportou aos idos de 1941, ocasião em que o poeta boêmio Mário Lago escreveu os notáveis versos "Ai, que Saudade da Amélia", que inspiraram o título da crônica e retratariam a história de uma lavadeira da cantora Aracy de Almeida que, por ser mulher de consciência, labutava de sol a sol para sustentar a família de nove filhos, Amélia dos Santos Ferreira. Cientes da saga da operária doméstica, os compositores fizeram a música; e, no ano seguinte, inscreveram a canção Ai, que saudades da Amélia, no Concurso de Carnaval, a ser realizado no Estádio de Laranjeiras do Fluminense Futebol Clube. É fato que em disputa direta estava entre outras a composição imortalizada por Herivelto Martins e Grande Otelo, “Praça Onze”: “Vão acabar com a Praça Onze / Não vai haver mais escola de samba, não vai / (...) Guardai os vossos pandeiros, guardai / Porque a escola de samba não sai”. Reza a lenda que este samba era o favorito para abocanhar o primeiro lugar do pleito carnavalesco, surgindo em decorrência de Otelo ter insistido com Herivelton para transformar em canção de protesto momesco a anunciada destruição da histórica passarela do samba, que sucumbiria para o prefeito Henrique Dodsworth construir uma avenida a se tornar a principal via de locomoção entre a Zona Norte e Sul da cidade de Sebastião do Rio de Janeiro. Quiçá, caiba o registro de que a obra de autoria de Lago e Ataulfo fora desprezada por todos os grandes baluartes da época, a ponto de Carlos Galhardo zombetear que “a tal Amélia era música para acompanhar enterro”. Diante da desfeita, o próprio Ataulfo Alves decidiu gravar e entrar na contenda contra Sandália de prata (Pedro Caetano / Alcir Pires Vermelho), defendida por Francisco Alves: “Pega uma sandália cor de prata / Põe nos pés de uma mulata / Vê como ela vale ouro”. Além desta mencionada composição, havia no páreo uma outra canção de idêntica temática da “tal Amélia”, intitulada Emília, de Wilson Batista e Haroldo Lobo: “Eu quero uma mulher, / que saiba lavar e cozinhar  / Que de manhã cedo, me acorde na hora de trabalhar / Só existe uma e sem ela eu não vivo em paz  / Emília, Emília, Emília, eu não posso mais”. Enfim, sorrateiramente, se insinuava a canção Nega do cabelo duro, de David Nasser e Rubens Soares: “Nega do cabelo duro / Qual é o pente que te penteia, ô nega”, na voz dos Anjos do Inferno. Apesar do decantado favoritismo de Praça Onze, os autores de Amélia trabalhavam na surdina a divulgação do seu samba em bailes pré-carnavalescos e na Rádio Nacional, onde Mário Lago assinava uma crônica diária sobre crítica de costumes e sátiras do cotidiano. O programa ia ao ar no horário do almoço e atingia o ápice do aplauso público quando o radialista narrava o drama de uma infeliz dona de casa, sofredora muito maltratada pelo esposo grosseiro e avarento. Artimanhas e malandragens do Poeta da Lapa com intenção de se forjar uma identificação forçosa, com os admiradores ouvintes do programa que, no dia do concurso, abarrotavam as arquibancadas do Estádio das Laranjeiras. Diante de um público ávido por reverências e contentações, definiu-se que a grande batalha musical se travaria entre Praça Onze e Ai que saudades da Amélia. Não obstante, o sarrafo se elevou ainda mais quando Herivelton Martins, acompanhado pelo Trio de Ouro, composto por ele, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas, apresentou a canção com a sestrosa mulata Jupira, a empunhar como estandarte a bandeira do Fluminense, cercada de ritmistas das agremiações cariocas comandados por um apito a pontuar as evoluções e batucadas de sua escola de samba de bolso: “Vão acabar com a Praça Onze / Não vai haver mais escola de samba, não vai / Chora o tamborim / Chora o morro inteiro.”

A encenação homérica orquestrada por Herivelton levou a plateia ao delírio, obrigando o inconsolável Mário Lago a se lamentar com o parceiro: “Perdemos, Ataulfo, perdemos”. Entretanto, antes da entrega dos pontos, o malandro mineiro Ataulfo Alves sacou da carta da manga que havia preparado como joga de mestre ao convidar o parceiro ao palco para ler a tal crônica; e, a seguir, recebeu as pastoras da Academia de Samba. Diante de estrondosos e incessantes aclamações, aplausos e ovações, a comissão julgadora do aristocrático clube carioca decidiu por conceder a divisão do título entre os dois sambas clássicos do cancioneiro popular, providenciando mais um prêmio de 500 mil réis, embora Herivelton Martins tenha declarado anos mais tarde que havia vencido “o bom crioulo Ataulfo com a sua Amélia e tudo”.


Autor: Wander Lourenço Membro da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), do Pen Clube do Brasil e da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ). Docente Externo Permanente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), pesquisador de Pós-Doutorado em Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa – Portugal; de Pós-Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO; e pesquisador de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Minas gerais – UFMG. Doutor em Literatura Comparada (UFF). Diretor dos documentários "Carlos Nejar, o Dom Quixote dos Pampas" (2015); "Nélida Piñon, a dama de pétalas" (2017); "O Cravo e a lapela – vida e obra de Ricardo Cravo Albin" (2021). Autor de livros e idealizador do programa de entrevista Literatices.

 
 
 

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