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Literatices: Guimarães Rosa – Ave, Palavra

Foto do escritor: Wander Lourenço
Wander Lourenço
6 de out.
8 min de leitura

No aniversário de oito anos do projeto Filosofia na Praia – Leme-RJ, idealizado pelo embaixador Jerônimo Moscardo, ex-ministro da Cultura de Itamar Franco, para felicidade geral da nação rosiana, quem brindou a assistência (leia-se: plateia.) fora o jornalista Leonencio Nossa, autor da mais festejada biografia sobre o escritor, médico e diplomata, publicada pela Editora Nova Fronteira, neste ano corrente de 2026. Entretanto, logo no início de sua conferência à beira-mar, o autor capixaba – o Nossa não é deles, das Minas Gerais; mas, sim, do Espírito Santo –, nos confidenciou que estava estupefato, perplexo e abismado, com a romaria de Leitores(as) do ficcionista nascido em Cordisburgo-MG, que o acompanhava em procissão, devotamente, aonde quer que fosse o lançamento do livro João Guimarães Rosa: Biografia, do Oiapoque ao Chuí. Em verdade, um calhamaço de 736 páginas elaborado em mais de duas décadas de pesquisa de arquivo e entrevistas sobre a vida e a obra do autor de Corpo de Baile (1956); e Grande sertão: veredas (1956).

No septuagésimo aniversário do Grande sertão, comemoramos o aniversário da obra-prima da Literatura pátria do século XX, marco-fundador da prosa de ficção pós-Geração de 30, capitaneada pelo Sr. Graciliano Ramos que, por sinal, concedeu o segundo lugar ao esboço do livro de contos Sagarana (1946) – portanto, aniversariante também, completando 80 anos de vida editorial –, destronando-o para dar a primeira colocação à Maria Perigosa, de autoria do obscuro Luís Jardim, no concurso literário da Livraria e Editora José Olympio, em 1938. Não obstante, o mais curioso desta história fora a sentença profética do Velho Graça que, por britânica previsão cronológica, presumiu, em seu ensaio Conversa de Bastidores, publicado no mesmo ano de Sagarana; e, posteriormente, reunido em Linhas Tortas (1962), que caso Guimarães Rosa começasse a escrever uma obra de ficção em 1946, decerto, em uma década, o romance de sua autoria se encontraria pronto, acabado e apto à celebração do público leitor.


Porém, em sua sentença literária, o emblemático Graciliano Ramos anotou que, na ocasião do nascituro do livro de ficção, não teria tempo hábil de lê-lo, porque a sua ossada estaria apta a esfarelar-se em fosfato de cálcio. Exatamente dez anos depois, em 1956, Rosa publicou Grande sertão: veredas, ao passo que o autor de Vidas secas havia falecido no ano da graça de 1953. Logo, de fato e direito, o taciturno autor de Angústia já estava morto e enterrado três anos, antes da mais importante publicação latino-americana do século XX, juntamente com Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.


Cabe explicitar que estes manuscritos eletrônicos não intentam decifrar a proposição do enigma de Guimarães Rosa em Grande sertão; todavia, discorrer a respeito de alguns aspectos observados em minha investigação acadêmica – assim se diz em Portugal –, iniciada com a tese de Doutoramento em Literatura Comparada, na Universidade Federal Fluminense – UFF (2003-06); e prosseguida nos estudos de Pós-Doc em Estudos Comparatistas do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Clássica de Lisboa (2013-16); em Estudos Literários da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO (2022-23); e em Teoria Crítica da Literatura, na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (2023-24). Destarte, para embrenharmo-nos de mãos dadas com o Dr. João Rosa pelos buritizais e igarapés, abrolhados nos sertões ao Norte Gerais, a princípio, dever-se-ia destrinchar que a saga narrada pelo ex-jagunço e fazendeiro Riobaldo-Tatarana se estrutura por intermédio da edificação de uma árdua linguagem, que se forja numa oralidade poética em prosa de ficção, construída pelo viés das reminiscências de um narrador em primeira pessoa abarrancado às margens do Rio Chico, matutando, metafisicamente, sobre as sutilezas da vivência sertaneja em sua sábia-ignorança:

 

“O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!” (ROSA, 2006, p. 17).

 

As recordações contadas pelo protagonista –– conquanto, na medida do possível, tal protagonismo seja partilhado com Reinaldo/Diadorim ––, se pautam por um vocabulário quase intransponível, à primeira vista, a partir de uma elocução barroquizante abarrotada de neologismos e arcaísmos, que aproximam o livro de João Rosa, como diria Manuelzão, célebre vivente vaqueiro de Corpo de baile, ao processo artesanal irascível no âmbito idiomático d’Os sertões (1902), de Euclides da Cunha; no contexto linguístico europeu, do Ulisses, (1922) de James Joyce; e, na ambiência norte-americana, na tessitura fabricada, sobretudo, na primeira parte de O som e a fúria (1929), de William Faulkner.


Quanto aos neologismos rosianos, certa feita o poeta João Cabral de Melo Neto relatou em entrevista que, no convívio com o autor de Tutaméia, presenciou Guimarães Rosa afirmar em inúmeras ocasiões, convictamente, que alguns vocábulos ele próprio, Rosa, os fabricava, quiçá, por engenho e alquimia. Por esta insólita razão, o singular inventor mineiro reivindicava para si uma espécie de certificado de paternidade: “–– Esta palavra é minha, Cabral, porque eu mesmo a fiz!...”. Em retorno ao Grande sertão, os obstáculos impostos pela ruidosa inventividade –– desconfia-se até que, qual Manoel de Barros, a (pa)lavra rosiana era produzida em alambique de coloquialidade e erudição ––, podem impulsionar o(a) Leitor(a) a acobardar-se dando o fora do livro, abandonando-o à própria sorte, diante desta Odisseia sertaneja a enredar segredos e mistérios da condição humana, com trilha sonora permeada de toadas e cantigas de boiadeiros, qual a “Canção de Siruiz”: “Urubu é vila alta, / mais idosa do sertão: / padroeira, minha vida / vim de lá, volto mais não...” (ROSA, 2006, p. 73).


Neste tubo de ensaio experimentalista, cujo precursor, quiçá, tenha sido o gaúcho João Simões Lopes Neto (1865-1916), torna-se mister acrescentar que o registro ficcional de Rosa paira à luz de um subterfúgio de narração, que se ancora na visita de um suposto hóspede-leitor que, logo no início da intrincada efabulação, irá se dar conta da ambiência rústica e inóspita daquele território longínquo, cultuado por um herói com reumatismo, o Riobaldo Urutu-Branco de outrora, a preveni-lo como distinguir disparo de arma de fogo: “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. (...) Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir (...)  depois, então, se vai ver se deu mortos” (ROSA, 2006, p. 7).


Ou seja, o que esperar de um livro em que o(a) Leitor(a) vem a ser, literalmente, recebido à pólvora e bala de chumbo!?!...  Mediante complexas construções sintáticas, conquanto este(a) Leitor(a) seja recebido a ferro e fogo, o impacto da organização das ideias, alicerçado pelo esplendor de sua prosa encantatória oriunda da vara de condão mí(s)tica, faz de Guimarães Rosa um legítimo gênio da arte literária, da estirpe de Euclides da Cunha, Faulkner ou García Márquez. Se esta justificativa ainda não for suficiente para enfrentar a leitura deste Grande sertão, sugiro que procure se entranhar na prosódia urdida pelo viés da análise das perspectivas e aflições deste narrador por um binômio, que abrange, em primeiro plano, a revelação da paternidade do jagunço Reinaldo; em segundo nível, o pacto com o Demo das Veredas Tortas; e, noutro patamar, a (in)controlável paixão ‘proibida’ por Diadorim.


A despeito deste dúbio sentimento amoroso de ordem homossexual, instaura-se a parábola que irá se esboçar desde a primeira ocasião de encontro entre Riobaldo e o Menino, até o derradeiro duelo desta espécie de ser andrógeno, Reinaldo/Diadorim, com o pactário Hermógenes. O que pode antecipar é que entre o espaço narrativo que separa os dois episódios – o do encontro com o Menino no Rio de-Janeiro, em que Riobaldo se encontra na condição de pedidor de esmola em razão da promessa materna; e o reencontro já adulto com o jagunço Reinaldo –, há apenas uma constatação, além da atração física nutrida por ambos, referente ao fato de que, aos treze anos, Diadorim já se travestia de homem (Reinaldo). No momento em que o(a) Leitor(a) se depara com a revelação da sexualidade daquele antigo Menino que, após peleja mortífera a punhal no Paredão-tão, ao se desnudar em Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins –, a obra literária se consagra numa das mais sublimes criações humanas de âmbito ficcional, mesmo que o desfecho da trama tenha decepcionado o poeta Manuel Bandeira, que preferia Diadorim homem até o desenlace do livro: “Como você disfarçou bem! nunca que maldei nada”. 


Reza a lenda que Guimarães Rosa tomado pelo mesmo efeito de estupefação e perplexidade do biógrafo Leonencio Nossa indagou a um amigo de ocasião “Mas o que foi que eu fiz?” Entretanto, a impressão que fica entre nós, pobres Leitores(as) mortais, é que até hoje ficamos sem ter – ainda que a procuremos incansavelmente pelos abismos de sua criação fabulosa –, assim como Drummond escreveu que “ficamos sem saber se João existiu de se pegar”, nós nos perguntamos o que há no Grande sertão: veredas, que nos impele a embrenhar por este labirinto de bifurcações da condição humana, que se acaso não nos ajuda a responder o porquê de lê-lo, ao menos nos auxilie a alumiarmo-nos diante do fascínio deste alumbramento bandeiriano, que o lera “de um rojão só”, consoante confissão sobreposta em correspondência.


Enfim, diante da antítese mais significativa da obra literária Grande sertão: veredas, representada pelo binômio Deus/Demo –– ao lado do questionamento da sexualidade exposta entre dois jagunços carnalmente platônicos apaixonados ––, o bardo pernambucano Manuel Bandeira exclama: “Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe: O diabo não há! Existe é o homem humano.”; embora o seu interlocutor já houvesse mencionado no decorrer da narração pela voz de Riobaldo-Tatarana que “o diabo existe e não existe”, ao passo que Deus era urgente sem pressa... E neste impasse dicotômico e paradoxal, o que resta a nós Leitores(as), diante deste livro-chave para desvendamento da paráfrase humana sobreposta em testamento de oralidade, em altar-mor da linguagem lírica e profana, diante da sacrossanta imagem de Nossa Senhora da Abadia, refletida nos verdes olhos de Diadorim ou da demoníaca presença do o Que-Diga, o Capiroto das Veredas Mortas, em disfarces do ódio guardado de Reinaldo na vingança do homicídio à traição do líder dos jagunços, Joca Ramiro: “Não sou amansador de cavalos! E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será??”


Ave, Palavra!...      


“Vivi puxando difícil de dificel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...” (ROSA, 2006, p. 21).

Autor: Wander Lourenço  

Membro da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), do Pen Clube do Brasil e da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ). Docente Externo Permanente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), pesquisador de Pós-Doutorado em Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa – Portugal; de Pós-Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO; e pesquisador de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Minas gerais – UFMG. Doutor em Literatura Comparada (UFF). Diretor dos documentários "Carlos Nejar, o Dom Quixote dos Pampas" (2015); "Nélida Piñon, a dama de pétalas" (2017); "O Cravo e a lapela – vida e obra de Ricardo Cravo Albin" (2021). Autor de livros e idealizador do programa de entrevista Literatices.

 
 
 

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