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Literatices: Alícia Bianchini, a Edith Piaf brasileira

Foto do escritor: Wander Lourenço
Wander Lourenço
29 de set.
4 min de leitura

Pasmem, senhoras e senhores, que a boa-nova traz no bico de pena a dádiva de que a maior revelação pátria da música popular contemporânea há de ser uma senhora intérprete de 70 anos de vida, a fenomenal Alícia Bianchini, a Edith Piafh brasileira. Nascida em 08 de junho de 1956, a magnífica Calíope caipira, originária de Rio Claro, interior de São Paulo, desponta como a maior novidade do cenário musical deste Éden Brasilis em madrigal ad aeternum, em meio a tantas outras cantoras esplêndidas desta geração de ouro do cancioneiro nacional, entre as quais Alice Passos e Luísa Lacerda, por exemplo. Não obstante, respeitável público –– substantivo (ainda) comum de dois gêneros, palatável ao crivo purístico das feministas de plantão ––, o assunto em voga destes manuscritos eletrônicos há de ser a estupenda e extraordinária aparição (quase mítica) da voz grave e marcante desta cantadeira do Sudeste rural e agrário, conterrânea de Amácio Mazzaropi, Elpídio dos Santos e Rolando Boldrin, a intraduzível Bianchini, que, aliás, a meu ver, em razão de seu timbre mavioso e heróico, deveria gravar um CD de fado à Amália Rodrigues, proposição esta que encaminho aos auspícios do exímio produtor Carlão de Andrade, ex-Som Livre; e, hoje, capitaneando o estúdio Visom de São Conrado.

Para surpresa da atônita plateia, boquiaberta e abismada, a estreia profissional desta matrona, tipicamente, italiana deu-se no Rio de Janeiro, no ano corrente de 2022, a partir do lançamento do EP Jazz Bossa Nova, com arranjos, produção e participação de ninguém menos do que Roberto Menescal, o último dos moicanos do gênero da Zona Sul carioca, fabricado pelo genial (e genioso) baiano, o Papa João Gilberto I (e único, diga-se de passagem). Mas deixemos de premonições fortuitas e dispensáveis, de modo que aplaudamos, efusivamente, a chegada à Ribalta deste fenômeno artístico que, às margens das 67 primaveras, iniciou a sua trajetória-relâmpago que, após três anos de carreira meteórica nos bailes da vida (e da fama), arrebata seleto grupo de admiradores fiéis diante desta Diva que figura como aspirante ao trono das estrelas, tais como Maria Bethânia e Mônica Salmaso. Não que o surgimento da Edith Piaf rio-clarense seja um fato novo na História da Música Popular Brasileira, pois que, como não nos recordarmos do aparecimento tardio da fantástica e gutural Clementina de Jesus, garimpada por Hermínio Bello de Carvalho, na Taberna da Glória, em 1963; ou o redescobrimento de Angenor de Oliveira, o Cartola, por Sérgio Porto, o inigualável Stanislaw Ponte Preta, numa garagem madruguenta de Ipanema?


Logo, não há inovação noticiosa na ocorrência lírica de que Alícia Bianchini adentrou o panteão da posteridade numa fase outonal de sua existência terrena, compartilhando, caetanamente, “a dor e a delícia de ser o que é”, ao lado de Cristóvão Bastos e Jane Duboc. Cabe explicitar que o frescor da boa-nova apregoada aos quatro cantos concentra-se no sobre-humano achamento de Menesca deste talento raríssimo numa vocação que roça o espanto e o sobrenatural, para impulsionar esta Dama de Copas ao estrelato olímpico, cujos timbres nos reportam à maior cantora em língua francófona de todos os tempos, a insubstituível Edith Piaf, a Pardalzinha. Porém, para sorte e glória desta nação abençoada por Deus e bonita por natureza, a nossa Passarinha Brilhante –– dando aqui uma de Deonísio da Silva, explico que a origem do vocábulo italiano “bianco” deriva do termo germânico “blanck”, que designa “branco” ou “brilhante”; e ao justapor-se ao sufixo “ini”, indicador de diminutivo de Bianchini ––, que, à imagem e semelhança de um Uirapuru macunaímico, entoa cantigas folclóricas e urbanas em idioma de Camões, Pessoa e Drummond de Andrade, como se observa na interpretação antológica “Resposta ao tempo”, de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, ao lado de Áurea Martins.

Personalidade singularíssima que impressiona pela imposição fonética a cada nota musical meio que sussurrada gravemente ao estilo das jazzistas norte-americanas, por intermédio de uma silabação perfeita, intacta e imponente, que nos hipnotiza e perfaz; que nos captura e liberta, como os versos ao Deus Chronus decantados pelo Poeta da Muda, numa relação dialógica (ou dialética) desafiante entre o passado histórico da canção e o porvir vanguardista de Arrigo Barnabé e Itamar Assunção: “Batidas na porta da frente / É o tempo...”. Assim sendo, pode-se dizer que Alícia Bianchini é bocejo de Euterpe em hálito de arrebol rústico; gorjeio de Sabiá-laranjeira em magnitude de alumiação; solfejo de Uratau em noite de serenata e estrelação ao redor da fogueira; cântico de coral serafínico barroco nas rodas de ciranda da infância; silvo murmurado de João-de-barro no galho da Dzalaúra-Iegue, interioranamente, universal; ou vozeio de Araponga em sarau de casa-grande ou senzala das fazendas de café, com sotaque italiano à moda Adoniran Barbosa.


Enfim, eis a deslumbrante Alícia Bianchini, fonte cristalina de sonoridade ímpar a alvejar lareira de choupana de barro e sapê interplanetária, às margens do Ipiranga, do Tietê ou do Ribeirão Claro de sua terra natal, de onde se espraia a sereia-fada, toante e encantatória, em moda roceira de viola do “Chuá, Chuá”, de Pedro de Sá Pereira e Ary Machado Pavão:


Deixa a cidade formosa morena

Linda pequena e volte ao sertão

Beber a água da fonte que canta

E se levanta no meio do chão


Se tu nasceste cabocla cheirosa

Cheirando a rosa no peito da terra

Volta pra vida serena da roça

Da velha palhoça do alto da serra.

Membro da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), do Pen Clube do Brasil e da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ). Docente Externo Permanente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), pesquisador de Pós-Doutorado em Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa – Portugal; de Pós-Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO; e pesquisador de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Minas gerais – UFMG. Doutor em Literatura Comparada (UFF). Diretor dos documentários "Carlos Nejar, o Dom Quixote dos Pampas" (2015); "Nélida Piñon, a dama de pétalas" (2017); "O Cravo e a lapela – vida e obra de Ricardo Cravo Albin" (2021). Autor de livros e idealizador do programa de entrevista Literatices.

 
 
 

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