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Arte viva: Outoneria de Álvaro e a primavera de Praga

Foto do escritor: José Ribamar Mitoso
José Ribamar Mitoso
24 de set.
2 min de leitura

"Sou livre pra pensar,

Eu não devo nada a ninguém,

E a liberdade, é tudo que eu sonhei,

Eu vou viver"

(Bernardo Vilhena)


Veja bem que loucura, leitor(a). Começo a escrever este texto na manhã do dia que começou a primavera, mas sobre um livro que celebra o outono. Outoneria. Brilhante livro do brilhante poeta Álvaro Nassaralla. Mas se na vida outono/primavera estão intercalados por inverno/verão, aqui a Primavera de Praga antecedeu a Outoneria.


Acautele-se, leitor(a). Antes de sacar sua arma e me lacrar com ilações difamatórias ou como "escritor pequeno-burguês traidor do proletariado tcheco" , lembro-lhe que antes de ler os poemas de Outoneria, estava lendo A vida está em outro lugar, romance de Milan Kundera sobre A Primavera de Praga/1968. Onde dói?


Na trama, o poeta protagonista muda de planeta no dia que começa a Primavera de Praga. Dia que, em 1968, iniciou o movimento de artistas e intelectuais pela democracia e contra a censura  dentro do socialismo. E dia do início da primavera. E antes das duas primaveras, em Praga, um grupo de artistas debatia a arte e a censura.


Um pintor afirma que a arte moderna liberou a arte do compromisso de imitar a realidade e de ser útil, e sempre proclamara a revolução comunista. Mas quando a revolução aconteceu, ela rejeitou/censurou a arte moderna como manifestação burguesa e impôs um modelo simplório, igual ao Kitsch burguês. Traiu a arte e a si.


O poeta protagonista Jeromil retrucou dizendo que se a arte moderna fosse moderna preveria seu próprio fim e desejaria que a revolução criasse uma arte nova, socialista. O pintor criticou Jeromil e disse que os poemas dele jamais seriam publicados sob o regime que ele defendia com veemência.O poeta disse "tudo bem". 


Outoneria, livro de poemas de Álvaro, dificilmente seria publicado naquele  "socialismo" militaresco autoritário tcheco, ou em qualquer outro, ou em qualquer capitalismo autoritário. Seus poemas são existencialistas, livres. "Exercem a liberdade de usar adjetivos e verbos em desacordo com os substantivos". (Bernardo Vilhena)


Na centena de poemas que compõem o livro, não há apologia a nenhum herói bem penteado, Estado, regime ou modelos. Nestes poemas, o poeta transvela o universo, a natureza, a existência, os sentimentos, o pensar, o tempo, o dia, a tarde, a noite, o eterno, as estações, o mar, o sol, a lua, o outono, a primavera, a vida.


"O outono  está livre", versa o poeta. "Você está nele e nas gaivotas sobre o mar. As folhas cairão em breve". Eu estou Outoneria e Primavera de Praga. E no poema Quando ainda era primavera_" as flores fazem momentos que fazem graça, que tardes vida: verdade é que elas não tão nem aí para horas, dias, meses, anos, séculos". Arte.


Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.       


Rio de Janeiro (RJ), 24/9/2026.


*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva. 

 
 
 

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