Literatices: Eliane Faria, a Princesa do Samba

“Tinha eu 14 anos de idade / Quando meu pai me chamou / Perguntou-me se eu queria / Estudar filosofia / Medicina ou engenharia / Tinha eu que ser doutor / Mas a minha aspiração / Era ter um violão para me tornar sambista” (Paulinho da Viola – Elton Medeiros). Respeitável público Leitor destas mal traçadas linhas, hoje, ritmadas aos timbres do violão que chora e à luz do batuque de terreiro de Tia Vicentina (“Provei do famoso feijão da Vicentina / Só quem é da Portela é que sabe / Que a coisa é divina”), que nos reportam ao coro das pastoras Tia Surica, Neide Sant'Anna, Áurea Maria e Jane Carla, guardiãs da tradicional escola de samba fundada em 11 de abril de 1923, no bairro de Oswaldo Cruz, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, de modo que se possa apresentar-vos a mais fina flor da nobreza portelense, fruto da aristocracia suburbana do Carnaval carioca, a magnífica dona Eliane Regina Pereira de Faria; ou simplesmente, Sua Alteza Eliane Faria, a Princesa do Samba. Primogênita do Imperador Paulinho da Viola I, neta do fidalgo Benedito César Ramos de Faria, o Duque de Botafogo, membro-fundador do conjunto de choro histórico, o Época de Ouro, com Jacob do Bandolim, o Visconde da Lapa, e Dino Sete Cordas, o Marquês de Santo Cristo; filha da passista Alcinéia Pereira da realeza provinda da Acadêmico do Salgueiro; e afilhada do ourives do verso Mauro Duarte, a herdeira direta da linhagem sucessória do sangue azul e branco da Dinastia de Portela da Comarca de Madureira, Oswaldo Cruz e adjacências, a Princesa Eliane Faria iniciou o seu magnífico trabalho de cantora profissional –– diga-se de passagem, sambista de fina estirpe, cuja afinação dos timbres desafia a estética do fonema de boa parte das intérpretes coevas desta nova safra made in Lapa moderna, tais como as plebeias Teresa Cristina, Nilze Carvalho, Roberta Sá e as irmãs estrangeiras Nina e Grazie Wirtti ––, como segunda intérprete da Escola de Samba Paraíso de Tuiuti, sendo a primeira mulher grávida a interpretar um samba-enredo na avenida; ou seja, uma espécie de Leila Diniz das passarelas momescas.
Conquanto não bastasse tamanha luminosidade advinda de sua genética atávica e privilegiada oriunda de uma hereditariedade da mais alta genealogia de Vossa Majestade o Samba, Sua Alteza Eliane Faria vem a ser legatária da linhagem aristocrática de sangue azul e branco da Dinastia de Madureira, onde o patriarca sobrevivente do clã Faria, o exímio cavaquinista e chorão Paulinho da Viola, anteriormente, fora condecorado como d. Paulo César Batista de Faria II, o Príncipe da Portela, fidedigno sucessor do baluarte d. Paulo da Portela I, ecologista da fauna numerológica, precedente de Castor de Andrade, o Duque de Padre Miguel, e de Aniz Abraão David, o Anísio, Marquês de Nilópolis. Neste turbilhão de ordens honoríficas e dinásticas de cunho nobiliárquico, a Princesa-Herdeira Eliana Faria, nascida e criada, literalmente, no berço do gênero musical mais brasileiro, certa feita, recebeu a alcunha de Filha do Samba, aventada pelo lendário Nelson Sargento, o Barão de Mangueira, que a abraçou lhe entregando o estandarte de ouro da Corte da Festa de Momo, fazendo-lhe as honras da casa como um mestre-sala corteja a porta-bandeira, em 1994, prefaciando a sua estreia no show “A filha canta o pai”, realizada no Espaço Cultural Fernando Pinto, no bairro Estácio de Sá, território boêmio frequentado pelo icônico, precoce e insuperável Noel Rosa, o Duque de Vila Isabel; e pelo majestoso Ismael Silva, o Conde de Jurujuba.
Consta no Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira, cujo verbete fora subscrito pelo pesquisador e jornalista Euclides Amaral, sob supervisão do musicólogo Ricardo Cravo Albin, que, no ano seguinte, a Princesa do Samba deu prosseguimento à carreira artística ao protagonizar o espetáculo “Eliane Faria, Cantando os 30 Anos de Carreira de Paulinho da Viola”, com a ilustre e gloriosa participação da Velha-Guarda da Portela. Ainda em 1995, Sua Alteza Eliane Faria atuou como participante do projeto “Mulheres de Março”, ao lado de Elza Soares, no Hotel Intercontinental. Não obstante, a intérprete reinante assumiu a sua consanguinidade legítima fidedignamente, de acordo o garimpeiro de pérolas musicais Euclides Amaral, apenas em 1996, brilhando ao fulgor da Estrela Dalva como backing vocal em “Bebadosamba”, de Paulinho da Viola; e, no ano posterior, ao lado de Edu Lobo, Martnália, Carol Sabóia etc., no CD “Tal pai tal filho”, disco no qual interpretou em dueto de sangue o samba antológico “Arvoredo”, parceria do Comendador Elton Medeiros com o El-Rey Paulinho da Viola I.
Surges na minha vida
Terna e sincera brisa
Que chegou tarde demais
Achas um pobre arvoredo
Desfolhado de sofrer E podes crer
Que amar não posso mais
Só porque
Já não tenho folhas verdes
Que possa te oferecer...
Logo, em mais de três décadas de labuta incessante, embora reverente às antecessoras Elizeth Cardoso, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Clara Nunes, Beth Carvalho e Cristina Buarque, a Marquesa de Paquetá, a resiliente e disciplinada Princesa Eliane Faria prossegue em seu reinado absoluto de sambista, forjando com esplendor e graça o seu talento abalroado de lirismo, como se comprova no admirável trabalho de 2017, em parceria com o pianista niteroiense André Mehmari e o percussionista Gordinho do Surdo, lançado pelo Selo SESC sob título de “Três no samba”, no qual interpretou, entre outras composições clássicas do gênero de Sinhô e Zé Ketti “Corra e olhe o céu”, de Dalmo Castelo e Cartola; “O quitandeiro”, de Paulo da Portela e Monarco; “Heróis da Liberdade”, de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira; e “Renascer das cinzas”, de Martinho da Vila. Cabe a menção de que o CD do trio, produzido pelo folclórico Pelão, fora lançado no SESC Pompeia, em São Paulo.
Todavia, para além de seu magnífico legado de intérprete e cantora, a venerável Sua Alteza Eliane Faria, a Princesa do Samba, ainda se destaca como melodista e letrista de sofisticada inspiração que, inclusive, já abrolhou na célebre parceria com Noca da Portela; e, sobretudo, em sua cadeira cativa entre os componentes da tradicionalíssima Ala de Compositores da Portela, povoada por bambas do porte e calibre de Candeia, Monarco, Casquinha, Argemiro, Manacéia e Chico Santana. Enfim, como já dizia o Menestrel do Samba Luiz Carlos da Vila, o show tem que continuar; e, como sambista que se preze não vive de herança, passado ou brisa nem título monárquico não enche a barriga de ninguém na contemporaneidade, a legatária do Imperador Paulinho da Viola I está na estrada da vida, dando voz ao espetáculo “Divas & Estrelas”, em comunhão com as cantoras Rosana Sabença, Dilma Oliveira e Andréa Montezuma, acompanhadas pelos músicos Márcio Almeida (violão), André Gonçalves (baixo) e Luís Sobral (bateria), homenageando Dolores Duran, Elza Soares, Sueli Costa, Nara Leão e Rita Lee.
Evoé, Baco!...

Autor: Wander Lourenço
Membro da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), do Pen Clube do Brasil e da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ). Docente Externo Permanente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), pesquisador de Pós-Doutorado em Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa – Portugal; de Pós-Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO; e pesquisador de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Minas gerais – UFMG. Doutor em Literatura Comparada (UFF). Diretor dos documentários "Carlos Nejar, o Dom Quixote dos Pampas" (2015); "Nélida Piñon, a dama de pétalas" (2017); "O Cravo e a lapela – vida e obra de Ricardo Cravo Albin" (2021). Autor de livros e idealizador do programa de entrevista Literatices.

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