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Arte Viva: Bertold(e) em versões br: pluralismo estético, movimentos culturais e políticas culturais na democracia brasileira pós-II Guerra Mundial

  • José Ribamar Mitoso
  • 18 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

"Minha terra tem macieiras da Califórnia,/ onde cantam gaturamos de Veneza./ Os sargentos do exército são monistas, cubistas, / os filósofos são polacos vendendo a prestações./ A gente não pode dormir / com os oradores e os pernilongos./ As nossas frutas são mais gostosas, / mas custam cem mil réis a dúzia."


                      "Canção do Exílio ",

                       de Murilo Mendes,

                       Livro "Poemas"

                            (1930)


Perfeito. Veja bem, leitor(a) - quero dizer antes - estão bem? Sim. Também. E grato às deusas e deuses pela vida. Sou um místico quântico mas jamais mordi. E talvez isto responda porque há muito tempo meus artigos de análise da arte possuem oito parágrafos de oito frases. É meu ritmo literário-reflexivo da numerologia. Vibe.


Simmmmmm . Meus contos, novelas, poemas e peças de teatro possuem outro ritmo. Outra vibração. Simmmmmm, este poema de Murilo Mendes é da data da Revolução Burguesa de 30. Início da Era Vargas. E é a primeira crítica à estética  Internacional-popular, travestida de nacional-popular, do modernismo nativista.


É um poema que sugere uma estética nacional-popular  para a arte brasileira neste início da Era Vargas. E está alinhado com o samba-manifesto nacional-popular Chiclete Com Banana, de Gordurinha. Samba que em 1958, na democracia pós-guerra e pós-Vargas, criticou a estética internacional-popular da bossa-nova(1958).


Em 1924, em Manifesto Poesia Pau-Brasil, Oswald'e Andrade  havia sugerido  que @s poetas (e @s artistas) brasileir@s deveriam parar de importar estilos europeus e criar uma poesia de exportação nacional-popular. Poesia inspirada na literatura oral indígena. Transformar as metáforas do mito em metáforas poéticas.


E no Manifesto Antropofágico (1928), Oswald completou a tese ao sugerir que @s artist@s brasileir@s poderiam dialogar / devorar  as estéticas estrangeiras e fundi-las com as estéticas ancestrais para criar uma arte nacional-popular de exportação. Mário de Andrade ( Rapsódia Macunaima) e Raul Bopp ( poema Cobra Norato) tentaram.


Mas foram contraditórios. Mário importou a forma Rapsódia, herdeira da epopéia grega,  para "embrulhar" o mito de Macunaīmã, já desvirtuado por ele. Bopp "embrulhou" a Cobra Norato com  imagens oníricas e saltos espaço-temporais da poesia surrealista europeia. Como na luta da Cobra Norato com a Cobra Grande.

A estética nacional-popular de Murilo talvez tenha influenciado  a política cultural nacional-popular do Estado Novo de fortalecer a cultura de origem nacional através do apoio ao samba, ao choro, ao  folclore popular de matriz Ibérica, ao artesanato. Mas apoiou de forma ufanista, dirigista, populista e manipuladora.


Murilo satirizou a "pureza" do nacional-popular ufanista e as fusões subalternas com padrões culturais estrangeiros. Em 1953, o Teatro de Arena defendeu a fusão do teatro épico de B. Brecht com temas nacionais. Manteve a dependência ao não usar as linguagens do teatro indígena para decolonizar o quintal. Fique zen. Explico .


Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.      Participou do VIII Colóquio de Culturas Digitais: Literatura Pan-Amazônica e etnomúsica brasileira na CPLP, lançando seu livro “Noturno manauara:_contos amazônicos na desglobalização”.

Rio de Janeiro (RJ), 18/12/2025.

*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva

 
 
 

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