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Arte viva: Mas tente outra vez: artistas, poesia contracultural, movimentos e políticas culturais em tempos de autoritarismo fora de moda 2

  • José Ribamar Mitoso
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

"Você entrega seu ingresso/ E vai observar o otário/ Que imediatamente vai até você quando te ouve falar e diz: - Como se sente sendo tamanha aberração?/ E você diz: - Impossível! / Enquanto ele te joga um osso/ Porque algo está acontecendo aqui/ Mas você não sabe o que é. / Não é, Mr.Jones?".

("Balada de Um Homem Magro"/ Bob Dylan)


"Desertei de meu posto/ eu não poderia mantê-lo/retaguarda/preservar a linguagem/lucidez: deixe que a linguagem se defenda sozinha/ela botou sabe deus quantas granadas nas ruas da cidade/ Suas barricadas são meus pesadelos/ preservem a linguagem!/ Existem suficientes fascistas & suficientes socialistas nos dois lados e então ninguém vai perder esta guerra/ A linguagem será meu elemento,/ eu mergulho nela/ suspeito que não conseguirei me afogar/ e me movo mais e mais delicadamente".

("Letras Revolucionárias"/ Diane di Prima)


  "Veja/Não diga que a canção está perdida/ Tenha fé em Deus, tenha fé na vida/ Tente outra vez/ Queira/ Basta ser sincero e desejar profundo/ Você será capaz de sacudir o mundo/ Vai, tente outra vez".

("Tente outra vez" / Raul Seixas e Paulo Coelho)

 

"A dor não vale como caução/ o poeta burguês barrigudo já levou toda nota que restava pra pagar plañideras/ O gosto rico da versalhada do Frederico avacalhou com este assunto/ Otário é quem acumula dor sem reinvestir, sem capitalizar, sem aplicar e tirar lucros/ Vou arranjar dinheiro, botar um táxi na praça e dirigir pra ganhar a vida/ Qualquer dia destes eu vou pros States criar um dois três filmes underground/ Acordo cedo / não saio pra me divertir/ pouco papo pra não ser levado de roldão/ e as pessoas de negócio são terríveis".

("Me segura qu’eu vou dar um troço"/ Waly Salomão )

    

Quem criou a arte , leitor e leitora? Não foi o arquiteto egípcio Imhotep, nem o poeta sumério Gilgamesh e nem  o escultor sumério Gudea. Foram os homo sapiens caçadores do Paleolítico digamos Médio. Talvez ancestrais dos atuais africanos Khoisan. 100.000-75.000 a.C. Gravuras em ocre, Caverna de Blombos, África do Sul.


O modo de produção determina o modo de civilização (Grosse, 1894). Os caçadores precisavam de observação e técnica. Para criar armas e caçar. E criar esculturas,  pinturas e HQ nas paredes, com  cenas da caça. Arte democrática. Involuímos. Eram globalizad@s. Pintaram em Lascaux (Fr) e na Serra da Capivara (Br). Que tal, leitor (a)?


Por ter sido a primeira forma de consciência, antes do mito e religião, a arte virou a queridinha e os artistas as celebridades da humanidade. Mas isto não justifica que os presidentes brasileiros Washington Luiz (1928) e Geisel (1978)  garantissem  direitos aos artistas , mas excluíssem as demais profissões culturais. 


Pelo Decreto nº 5.492/28, Washington Luiz regulou pela primeira vez a relação entre  indústria cultural e artistas na América Latina. Garantiu direitos aos artistas de teatro, dança, ópera, circo, mímica, música e coro. Contrato, jornada , descanso semanal, direito autoral, indenização, credores de massa falida.


Em 1978, através da Lei 6.533/78, e do  Dec 82.385/78, que a regulamentou, (ainda em vigor), Geisel  adaptou a lei anterior às garantias da CLT. Garantias: as entidades passaram a regular o exercício profissional, formar, atestar capacitação e registrar. Contrato com horário, jornada, intervalo de repouso, remuneração e forma de pagar.


Em 2023, o Movimento Cultural Narikohly,  "amanhã" em Aruak-Manau, refletiu o tema, elaborou uma tese, mobilizou, defendeu e a aprovou na IV Conferência Nacional de Cultura. O Minc colocou-a em Consulta Pública. O movimento organizou audiência pública na Assembleia Legislativa/ AM com o Minc. Depois enviou Carta ao Executivo. 


A tese é para realizar uma nova regulação/regulamentação profissional e incluir todas as profissões culturais do folclore,  artesanato,  festas populares, culturas étnicas, culinária, comunicação comunitária, cybercultura, moda. Foi elaborada sem custos, na generosidade da boa vontade cidadã viva. De bolso limpo.


É uma proposta da sociedade e não do Estado, que deve evitar a lógica colonial que atravessou a história do país - descartar o movimento cultural (Narikohly), se apropriar e impor algo do Estado para a sociedade, e do centro hegemônico para a obediência servil das outras regiões e Estados federados. Mas tente outra vez.



Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.       


Rio de Janeiro (RJ), 5/2/2026.


*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva

 
 
 

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