Arte viva: Mayombe: o talvez contra o sim ou não
- José Ribamar Mitoso
- 4 de jun.
- 2 min de leitura
Há muito tempo evito escrever sobre arte. Sabe... pra quê? Um amigo de infância, executivo financeiro na Suíça, me iluminou sobre isto: "o que me interessa saber o que pensas sobre o Bilac, mano?! Se prestar a intermediário de poesia? Deixa que eu leio. Aliás, nem leio. Vivo. Viva, brother. Olavo Bilac? Aquele almofadinha? Me poupe".
Todavia, sou daqueles que celebram o dever de gratidão. Sinergia. Somos vibração molecular e sintonizamos na frequência que somos capazes. Desde 2008 mantenho sinergia literária com escritor@s da comunidade dos países de língua portuguesa/CPLP. El@s divulgam minha obra no CPLP e eu @s divulgo na Braziland.
Literatura da CPLP. Detesto citar. Bengala. Mas foi o russo Bakhtin que estudou os romances de Dostoiévski e criou o conceito de polifonia narrativa (pra quê?). Várias vozes em contraste contando a mesma história ou participando dela com voz autônoma. Os Demônios (1871-72) é o polifônico mais realista militante do autor.
Quer dizer: quase polifônico. Porque não é uma articulação estrutural de narrativas em primeira pessoa. É plurivocal, digamos assim. Tem narrador em terceira pessoa, mas com várias vozes plurais. Stavróguin (niilismo). Verkhovênski (revolucionário manipulador). Chátov (nacionalista religioso). Varvára (rica- iberal-autoritária) .
Em 1980, o escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, pseudônimo Pepetela, publicou o romance Mayombe, ficcionando sua experiência na luta pela independência nacional de Angola nos anos 70. Com este romance, ele reinventou o estilo realismo-revolucionário ao incluir uma sofisticada polifonia como técnica.
Fiat Lux. O que deu ao romance o status de arte conceitual experimental é que, com muita habilidade, Pepetela transformou a estrutura social em estrutura textual. Transformou o pluralismo étnico-cultural, linguístico e ideológico da luta em estrutura narrativa polifônica com múltiplos narradores que expressam este pluralismo.
A tensão da trama é estrutural. Os capítulos são narrados por diferentes personagens-narradoras em primeira pessoa, com diferentes versões da luta. Teoria, Ondina, Surucucu, Muatiânvua, Comissário Político são algumas dest@s vozes. Ao encaixá-las em uma estrutura polifônica, ele revolucionou a literatura.
Narrador "Teoria", inicia :"Trago em mim o inconciliável. Em um mundo de sim ou não, sou o talvez". No Epílogo, o narrador Comissário Político conclui: "Há os que precisam escrever para despir a pele que já não lhes cabe. Outros mudam de país. Outros de amante. Outros de nome ou de penteado. Eu perdi um amigo". Arte Viva.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 4/6/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.


Comentários