Arte viva: O céu e a rua: projeto sensibilizar 1
- José Ribamar Mitoso
- 21 de mai.
- 3 min de leitura
"A sensibilidade é, parece-me, esta disposição companheira da fraqueza dos órgãos, conseqüência da mobilidade do diafragma, da vivacidade da imaginação, da delicadeza dos nervos, que inclina alguém a compadecer-se, a fremir, a admirar, a perturbar-se, a chorar, a desmaiar, a socorrer, a fugir, a gritar, a perder a razão, a exagerar, a desprezar, a desdenhar, a não ter qualquer idéia precisa do verdadeiro, do bom e do belo, a ser injusto, a ser louco. Multiplicai as almas sensíveis".
(in "Paradoxo sobre o comediante" (1769), Teoria geral da sensibilidade, de Denis Diderot).
Após uma turnê contracultural em várias cidades das regiões brasileiras, o artista plástico amazonense Sérgio Moura chegou em Curitiba no final de 1972. Tinha 23 anos. Em 1973, ao iniciar o curso superior de artes na EMBAP/PR, se inscreveu para o Salão de Novos Artistas/PR e foi rejeitado na "cara dura", sem explicações razoáveis.
Então... Fiat Lux!! E fez-se a luz. Como resposta a censura, Sérgio imaginou e realizou a melhor expressão de happening da história artística brasileira. Muito, esteticamente muitíssimo superior as instalações de Hélio Oiticica no Rio/ RJ. Conceitualmente. Composicionalmente. E com sensiência vegana de vanguarda.
Nas semanas anteriores ao evento, Sérgio alimentou e hidratou dez pombos, e ficou amigo deles. Na abertura do Salão, ele realizou o happening. Chegou com os pombos escondidos no casaco e com uma grande armação de arame e papel na cabeça. Soltou os pombos no auditório e os pombinhos, seus parceiros, que iam e voltavam para a armação de arame, expressaram a liberdade de criar/voar.
Aliás, a relação de Sérgio com o céu, com o voar, com as cores voando e com o sentimento de liberdade que isto expressa começou em Manaus, nos anos 50, e foi decisiva para sua opção artística profissional. A arte de fazer e empinar papagaio de papel foi que o encantou para a arte. A vida dos ateliês de confecção - com cola, papel de seda, tala de buriti, tesoura, linhas, desenhos, policromia visual, cubismo informal - o seduziu e capturou sua sensibilidade criativa.
Em entrevista, sua filha Celeste Moura desvelou as entranhas emocionais desta relação estético-sensitiva-criativa: "Em termos da Arte", disse ela, "eu falo muito sobre o amor dele pelo céu, inclusive o meu nome é Celeste - eu sou prova disso - e obviamente é muito claro no trabalho dele toda essa temática azul claro com elementos voadores sempre. Isso tem a ver com o encanto dele com o céu e com essa ideia de liberdade, de viajar, de voar."
Entre 1977 a 1987, período da anistia, da campanha das "diretas já" e da Constituinte, Sérgio idealizou muitos projetos para articular arte, céu, rua e participação popular cidadã. Praça da Arte, Artshow, Sensibilizar. Reuniu artistas e os aproximou do público. O Sensibilizar gerou o "Grito Manifesto" de garis contra a ditadura.
Mas por que projetos com esta grandeza estética rara são praticamente invisíveis no Brasil e no mundo? Que silêncio sorrateiro sem critério é este? Simmmm. A questão não é e nunca foi artística. A questão sempre foi a relação da arte com a mídia/ marketing que substitui o valor estético por valor de mercado/fama. Vendeu quantos exemplares? Happening é experiência única. Irrepetível. Vai vender como?
O silenciamento das genialidades até o limite da desinformação é calculado? "Esquema geral da nova objetividade" (1967). Texto de Hélio Oiticica que "tropicalizou" o "The Creative Act" (1957), de Marcel Duchamp. A obra de arte como experiência única irrepetível do criador e do público, que é parte do ambiente e da obra. Bólides (1963), Parangolés (1964/1965), Tropicália (1967), Delirium Ambulatorium (1971/New York) são instalações repetíveis de Hélio. E sem parceria com as aves. O happening dos pombos de Sérgio é único. Irrepetível. Vegan. Genial. Arte Viva.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 21/5/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.



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