Arte viva: O teatro palco Brasil 2: Pluralidade estética, movimentos culturais e políticas culturais na democracia brasileira pós-II guerra
- José Ribamar Mitoso
- há 1 dia
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"Entre a tragédia e a comédia há um gênero intermediário que representa a vida e os deveres da condição humana.”
(Diderot in "De la poésie dramatique" /1758).
“Antes de tudo, é preciso não dotar os próprios personagens de espírito, mas sim colocá-los em situações (conditions) que lhes dêem espírito...”.
(Diderot in "De la poésie dramatique" /1758).
“O teatro épico não mostra sentimentos, mas as condições em que eles surgem.”
(Brech in "Pequeno Organon para o Teatro" / 1948)
"A maioria das pessoas imagina que o mais importante no diálogo dramatúrgico é a palavra. Engano: o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão."
( Nelson Rodrigues in "Óbvio Ululante" )
O teatro é assim, meu e minha leitor(a). Aqui está o mais ranzinza de meus artigos. Teorizar é um gesto espiritual mal-humorado. Raros filósofos pensaram com humor. Em combo com belas teorias, esfregam fossa e lama em vossos rostos. Daqueles que eu li, ri apenas com Epicuro, Erasmo de Roterdã, Nietzsche e Osho.
Por isto, prefiro ler e escrever contos, novelas, peças e poemas satíricos. Mas sou dramaturgo. Estudei a história da dramaturgia para me entender como autor. Não teve outro jeito. Minha primeira pós-graduação foi em tema Estético.O diálogo na dramaturgia de Nelson Rodrigues e Dias Gomes. Lá vai, leitor(a).
Antes de Diderot, o teatro clássico francês do século XVII vestia o figurino grego. Unidade de ação, tempo e espaço. Verossimilhança.Linguagem poética. Desditas amorosas. Personagens heróicas e nobres. Conflitos psicológicos movidos por moral e amor (Corneille: "O Cid") ou paixão trágica (Racine: "Fedra")
No século XVIII, Diderot criou o drama burguês, gênero entre a tragédia e a comédia. Diderot - "o drama não deve levar à cena personagens, mas sim conditions, nas quais surgem as espécies (tipos) morais". A linguagem dramatúrgica/cênica é o “tableau”. E cenas feitas de quadros vivos e móveis de expressões. Le Père de famille.
Ibsen (1828–1906 ) e Tchékhov (1860–1904) fizeram o drama moderno. O drama burguês se torna crítico da vida burguesa. O "herói" é problemático, não exemplar, em conflito psicológico. "Peer Gynt"/ Ibsen. Na tetralogia deTchekhov, quase não há ação externa. E sim tensão psíquica. Diálogos fragmentados, feitos de silêncio e pausa.
Brecht mentiu sobre o drama burguês para criar o teatro épico. Afirmou que ele "não conscientizava", "criava ilusão". Mas usou as "conditions". Disse - "o teatro épico não mostra sentimentos, mas as condições em que eles surgem”. Encenou as "conditions" do proletariado como personagem-coletiva em ação. Em blocos.
E o palco Brasil? O Teatro de Arena e o Teatro do CPC UNE reivindicavam-se brechtianos.Encenavam "conditions" da vida do proletariado em conflito classista. Usavam a técnica do distanciamento (tableau?) para evitar a ilusão e fazer pensar. Narração direta, por quadros autonômos, sem trama fechada fixa.
As diferenças adjetivas - espaço cênico, cenografia, uso do ator-narrador que comenta a ação. "Eles não usam black-tie" (Arena) e "A mais-valia vai acabar, seu Edgar" (CPC) tinham personagens-proletárias coletivas. Brecht. Mas "Arena Conta Zumbi e Tiradentes" tinham "heróis". AntiBrecht. O teatro é assim. Fique bem.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 22/1/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.

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