Arte viva: Yandé Anga está ligada

Vou insistir, leitor(a). Há muito tempo evito escrever sobre arte. Sabe... dar palpite sobre o que outr@s criam?! Prá quê? E não é porque rouba o tempo dedicado às minha artes. É porque considero a análise da arte deselegante e inútil. A crítica de arte é muito pior: é grosseira e incorreta. Abrigo de predador@s estétic@s. Tô fora!
É deselegante porque, mesmo com critérios estéticos, a análise sempre está incompleta. Inútil porque o consentimento público para uma obra de arte existir não depende de critérios estéticos. Não é a escola, a universidade, a análise de arte ou os artistas que formatam o gosto. Ele é fabricado pelo mercado, com sua ideologia.
Mas fiz a apresentação do livro de contos Yandé Anga, da escritora indígena Bete Moraes, do povo Desana/Alto Rio Negro/Brasil. E intuí ser útil defender a literatura indígena dos preconceitos do gosto inútil, colonizado, colonialista, supremacista. A percepção nacional sobre esta literatura é não-literária. Eis a questão: tupi or not tupi?
Os enfoques quase sempre têm sido antropológicos, etnográficos, didáticos ou arqueológicos. A literatura dos povos indígenas tem sido percebida como memória, como identidade cultural, como afirmação étnica ou como material de ensino de língua. Nunca como literatura, porque quase não se fala em estilo, arte.
Isto é muito estranho e, no fundo, mesmo que fortaleça o seu papel cultural, diminui o valor da literatura indígena como arte, pois oculta o valor estético- estilístico. Yandé Anga: Contos do Rio Negro é um livro cujo título já esclarece muitas coisas. E cujo estilo realista-mágico ancestral e autoral põe a arte indígena no devido lugar.
Yandé Anga, em nheengatu, língua geral do Rio Negro, significa "nossa alma". E ao titular o livro assim, a escritora assume que os temas e a visão de mundo da subjetividade de quem narra as histórias é parte da cultura Desana, ainda que o subtítulo indique que o livro foi escrito em língua portuguesa, língua do colonizador.
O título esclarece também que a forma literária é o conto. E antecipa que o ambiente cultural destas narrativas de ficção é a civilização do Rio Negro. Todavia, o que o belo título não esclarece é o estilo realismo mágico da autora. Não pretendo fazer "spoiler". Curta os contos como o "que pássaro é esse que há dentro de ti?". Frua.
Mas os leia como realismo mágico, porque os seres míticos e os fatos mágicos, "ilógicos", que compõem a realidade cultural das narrativas são parte da vida cultural cotidiana do povo Desana. Melhor: a autora transformou em literatura autoral os registros lendários orais ancestrais realistas mágicos. Arte. Bete.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 22/10/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.

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