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Arte viva: YBYTU e o vento

Foto do escritor: José Ribamar Mitoso
José Ribamar Mitoso
há 2 dias
2 min de leitura

"Antes que o fogo se revele, a alma precisa aprender a não fugir da própria luz. Há sonhos que não vem para descansar o corpo, vêm para abrir caminhosl invisíveis. Naquela manhã, sem saber, Ybytu estava prestes a ser chamada outra vez . E o vento já começava a se mover".

(in Ybytu, sob a linhagem do vento, de Gisele Umbelino).

Vou insistir, leitor(a). Há muito tempo evito escrever sobre arte. Sabe...considero a análise da arte deselegante e inútil. Deselegante porque quase sempre está incompleta. Inútil porque o consentimento para uma obra de arte existir não é dado pela escola, pela análise ou pelos artistas. O gosto é fabricado pelo mercado. Bora.


Bora: a nova vibe de fabricação do gosto, embalada pela cultura work, é submeter as artes às questões de gênero e raça. E não pela forma e estilo, que é o que faz a arte ser arte, e não filosofia, ou ciência, ou jornalismo, ou panfleto. Pesquisa e sintoma: 84% das pesquisas acadêmicas em literatura a olham por esta lupa. Bora.


O poeta negro Cruz e Souza se tornou o mais icônico do simbolismo brasileiro pela musicalidade, sinestesias, imagens e aliterações de seus poemas. Machado de Assis foi o ícone do estilo realismo psicologista pela técnica do narrador não-confiável, pelos diálogo com @ leitor(a), pela metalinguagem. A questão é estética.


E foi isto que despertou minha atenção para o livro de ficção "Ybytu, sob a linhagem do vento", da escritora indígena Tupiniquim Gisele Umbelino. Ela o divulgou nas redes digitais como uma experiência de ficção literária que tem como estilo o realismo mágico. Isto ultrapassa as divulgações da arte indígena como algo étnico e exótico.


Melhor: para esta sofisticada escritora contemporânea do povo Tupiniquim, o realismo mágico é uma percepção literária da realidade com dimensões que a lógica racional nem sempre consegue explicar. É uma maneira de ampliar o real e permitir que os sinais, a natureza, a ancestralidade e as memórias tenham lugar na narrativa.


E outra questão da hora: ainda que o olhar feminino e indígena atravesse sua belíssima ficção literária, o gênero na literatura de Gisele é por ela mesmo destacado como épico-lírico indígeno-futurista. Isto é: sua obra narra uma história mágica ancestral autoral, mas atravessa o tempo. E penetra nas emoções do mito.


A primeira indígena que publicou um livro foi Sarah Winnemucca, do povo Northern Paiute. "A Vida entre os Paiute" (1883). O primeiro romance foi "Wynema: Uma Filha da Floresta" (1891), de S. Alice Callahan, do povo Muscogee (Creek). A primeira indígena brasileira foi Eliane Potiguara, que já publicava narrativas nos anos 1970.


Gisele arrasa: "O fogo pulsou mais uma vez. E Ybytu entendeu. O portal diante dela não exigia passos, ainda não. Algumas travessias começam primeiro por dentro. As maratacas cruzaram o céu mais uma vez. O vento mudou de direção. E naquela noite, embora ninguém ainda soubesse, Ybytu voltou a sonhar". Brilhante. Obra rara.

Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.       


Rio de Janeiro (RJ), 1/10/2026.


*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva. 

 
 
 

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