Crônicas do Cotidiano: O Declínio da Educação Formal no Brasil
- Walmir de Albuquerque Barbosa

- há 14 horas
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Quem estudou no Colégios São Luís (SP), Santo Inácio (RJ) ou Dom Bosco e Adventista sabia que os mesmos eram confessionais; quem estudou no Colégio Brasileiro (AM), na Casinha Branca em Manaus, no Instituto Christus do Amazonas ou na Faculdade “Casper Líbero” (SP) sabia quem eram os donos ou as instituições que as mantinham e seus propósitos e, até, a quem cobrar por eventuais maus resultados. Os que saíam das Universidades não se envergonhavam ou escondiam o seu local de formação, daí o orgulho em dizer em público que a Universidade tal era a sua Alma Mater. Excluídas as Universidades Ranqueadas, isso já não é mais usual. Quando a educação vira mercadoria, o marketing das escolas está no quantum de aprovações para vestibulares ou concursos ou, ainda, nas posições ocupadas por egressos no mercado. Esta é, apenas, uma das faces, a menos cruel, da Escola como instituição. Desde os primórdios, no Brasil, a Educação Formal foi coisa de rico, mesmo quando as instituições públicas se firmaram na sociedade, foram apropriadas pela elite e, nelas, o refúgio dos pobres eram os cursos menos interessantes da “ascensão social” – licenciaturas e bacharelados noturnos –, com cargas horárias menores, professores “biqueiros” ou exaustos, em jornadas escorchantes. O que explica, sobremaneira, desigualdades na formação.
Saudosismo? Creio que sim! Porém, não se pode negar o processo de degradação do ensino e das instituições na sociedade. As instituições confessionais tomaram rumos diferentes, em parte elitizando-se escoradas na tradição para manter-se no mercado; outras cederam ao infortúnio do conservadorismo e enveredaram pelo radicalismo religioso e no excesso moralista contra os “maus costumes”, tornando-se verdadeiras “madraças” neofascistas; as escolas particulares, ligadas às famílias que se dedicaram à educação criando colégios e até faculdades, não conseguiram sustentar-se de pé ante as exigências da clientela e foram engolidas por grupos empresariais interessados em educação com finalidades lucrativas. Era o começo das fusões ou absorção de bens e clientela.
Já a Escola Pública definhou a olhos vistos por fatores diversos. Ser professor, dizia-se na época da Geração Yuppie, era a escolha de quem não tinha capacidade para ser coisa alguma: o pior emprego, o pior salário, a maior jornada de trabalho não pago que redunda em prejuízo do aprendizado do jovem, do futuro profissional. Lembro de um “causo verdadeiro”, acontecido comigo, no início de minha carreira de professor na Escola Pública. No turno da noite, tive como colega um Juiz de Direito, mas “professor biqueiro”, de “Problemas Brasileiros”, que “gostava de sair de casa para dar aulas à noite”. Certo dia puxou conversa comigo: “observo que você fica todo o tempo vago corrigindo provas e exercícios; tenho algum tempo de trabalho como professor e isso ensinou-me que os alunos são o que são, uns têm cara de cinco, outros de seis ou sete, uma minoria fica entre oito e nove, dez é muito raro; portanto, olho bem para eles nas primeiras aulas e não preciso ficar corrigindo provas”. Ele estava prestes a aposentar-se e eu começando o meu mister de professor. Não era só ele que fazia isso, já havia percebido. Era o sinal da decadência!
Para caber a educação física, a educação moral e cívica, a doutrinação nacionalista e dar um upgrade no mercado, adestrando trabalhadores dentro da escola formal, a Reforma da Ditadura (Lei 5. 540/68 e 5.692/71, envolvendo o ensino superior e básico), retirou os conteúdos e disciplinas que formavam a consciência crítica e implantou o novo modelo de educação. No Ensino Superior, extinguiu a Cátedra para caçar os professores titulares e mudou a carreira universitária; deslocou as universidades para terrenos baldios e distantes, criando Campus Universitários – inacabados por falta de verbas – para controlar o movimento estudantil; extinguiu a UNE e colocou agentes do SNI dentro das salas de aula; e reformou o currículo dos cursos superiores. A Escola Pública Laica e de Qualidade, atacada, vilipendiada e enfraquecida definhou por completo, deixando de ser o espaço da formação crítica dos cidadãos no Brasil, abrindo espaços para a mediocridade e para o capital privado e seu modelo de negócios, o que será uma nova história!

Jornalista Profissional.
Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas.
Manaus (AM), 6/2/2026.
*Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano.
Confira na obra "Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia".
Confira no canal do EMERGE a entrevista no programa Programa Comunicação em Movimento 09



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