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Arte viva: Mia, Couto! Terra sonâmbula

  • José Ribamar Mitoso
  • 11 de jun.
  • 2 min de leitura

Vou insistir, leitor(a). Há muito tempo evito escrever sobre arte. Sabe...ficar dando pitaco sobre o que outr@s criam?! ...Pra quê? Mas, desde 2008, em sinergia literária, escritor@s da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa divulgam minha obra na CPLP e eu  os divulgo na Braziland. Pura ironia: a lusofonia que oprimiu agora une.


Todavia, jamais me interessei em ler o escritor moçambicano Antônio Emílio Leite Couto. Não que tenha qualquer preconceito em ler um descendente de portugueses, branco, classe média, que teve acesso ao  letramento por esta condição,  em um país no qual os grupos étnicos ancestrais não tiveram pelo motivo inverso. Isto é tolice.


Nunca me incomodou ele ser um branco rico, que escrevia sobre a luta de libertação nacional destas etnias negras. Tolice. Já disse. Meus defeitos são outros. Ele foi diretor de jornalismo da Frente de Libertação de Moçambique. E, nesta condição, articulou a mídia mundial para a causa (e para  sua literatura). De boa.


E  sempre ignorei o  veneno fake da inveja desinformada,  que "acusou" sua obra de ser um mix do "realismo mágico de Gabriel Garcia Marques" com a genialidade  linguística de Guimarães Rosa. Eu "se divirto" com estas fraquejadas. O "realismo mágico" foi uma invenção do Venezuelano Arturo Uslar Pietri no conto "La lluvia" (1935). Depois ele conceituou em "Ensaio Letras y hombres de Venezuela" (1948). 


E Rosa  inspirou Couto sim. Mas Rosa também foi influenciado por Joyce, que foi influenciado...ah...todos se reinventaram.


A verdade é que o tom melancólico da sua ficção me fez sentir como se ele estivesse esfregando fossa emocional ou lama latrinal em meu rosto. Sabe...no romance Terra Sonâmbula ele mesmo fez Tuahir dizer para Muidinga: "Não pensa, rapaz. A vida é tão curta, você quer encher ela de tristezas?” Mas era o tom da luta.


Todavia,  quando uma amiga poetisa, que o lê porque o acha lindo, quando ela me disse que o escritor Antônio Emílio Leite Couto adotou o pseudônimo “Mia” por paixão aos  seus gatos e miados, passei a olhá-lo com outros olhos. Sabe... sei lá: como não gostar de alguém que ama a minha espécie? Sou gato. Espiritualmente.

Reli Terra Sonâmbula. O Mia narrador do realismo mágico incluiu mitos, crenças e sonhos irreais como parte real da vida. E articulou,  friccionou e ficcionou duas histórias: a viagem de Tuahir e Muidinga em terceira pessoa, e em primeira pessoa os  cadernos de Kindzu, achados por eles em um ônibus incendiado na guerra civil. 


A magia criativa de Mia: narrar em terceira pessoa a viagem da dupla no presente. E friccionar o presente com os Cadernos de Kindzu, que narram o passado para invocar ajuda aos míticos combatentes ancestrais Naparamas. Além da identidade passada, ele os queria como aliados na guerra civil daquele presente. Brilhante. Mia, Couto.

Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.       


Rio de Janeiro (RJ), 11/6/2026.


*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva

 
 
 

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