Arte viva: O esteta vegan Balzac e o cachorro "Orelha"
- José Ribamar Mitoso
- 9 de abr.
- 2 min de leitura
Leitora, leitor, está em curso belíssima jornada de proteção às mamães gambás, com texto virtuoso e satírico - "não machuque as mamães gambás. Cruzar com você não precisa ser uma infelicidade para estes animaizinhos. Lembre-se_ você também é fei@, e ninguém te dá uma paulada por isto."
Esta campanha faz parte do "abril laranja" contra os maus-tratos aos animais, e contra os recentes ataques ao cachorro Orelha, à capivara e ao elefante marinho Leôncio. As mentiras com as quais se justificam maus-tratos deste tipo já foram desveladas no século XVII, na novela "penas de amor de uma gata inglesa", de Balzac.
O grego Homero (séc. VIII.a. C), o grego Esopo (séc.V a.C.), o persa Saadi (séc. XII/ XIII) e o francês Charles Perrault (séc.XVII) narraram fábulas sobre rãs, ratos, galo, raposa, leão, asno, cachorro, macaco. Fábulas geralmente escritas por narrador humano, em terceira pessoa, e "sobre" os animais, e não "como" animais.
Esopo pôs "moral na história" e criou perfis bons e maus, que estigmatizou
alguns, que continuam como alvos de violências até hoje. O lobo (mau), a raposa (ladra). Foi contra isto aliás que escrevi o conto "fábula vegana", fábula antifábula, para extinguir o gênero que difama e incentiva maus-tratos. Está em meu livro "Noturno Manauara".
Balzac (sec. XVIII/ XIX) foi o primeiro autor a narrar fábula em primeira pessoa, como animal, como gata, com sensiência animal, com estética vegana. O prussiano E. Hoffman com "reflexões do gato Murr" (1822), o japonês Natsume S. com "eu sou um gato" (1905) e o francês Gérard Vincent com "Akhenaton" (1990) seguiram a trilha.
Na "comédia humana" (1830-1856), Balzac incluiu "penas de amor de uma gata inglesa" (1842). Quem narra a fábula em primeira pessoa, como personagem-narradora, é a gata inglesa Miss Beauty. Fundou a estética vegana moderna porque é narrada com sensiência animal e porque trata de leis de proteção aos animais.
Começa com Miss Beauty, em carta a Brisquet, gato francês que ama, falando da lei francesa. "Quando o relatório detalhado da sessão realizada por vocês chegou a Londres, ó animais franceses!, fez palpitar o coração dos amigos da Reforma Animal". E encerra denunciando o discurso usado para justificar o assassinato de Brisquet.
Diz Beauty - "apesar de Brisquet ter o corpo atravessado por uma punhalada, o Coroner, com uma hipocrisia infame, declarou que ele havia se envenenado com arsênico. Como se fosse possível que um Gato tão alegre, tão brincalhão, e que eu amava, pudesse sentir o desejo de abandonar a existência!". Lembrei "Orelha".

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 9/4/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.

Comentários