Arte viva: O teatro pós-dramático "cão": vastas emoções, pensamentos imperfeitos
- José Ribamar Mitoso
- 12 de mar.
- 2 min de leitura
A partir da tragédia "Coriolano", de Shakespeare, e em bela parceria, os grupos Clowns de Shakespeare (RN) e Magiluth (PE) criaram uma comédia brilhante."Cão". Ou melhor: transformaram o trágico não apenas em cômico ou tragicômico ou dramático. Mas em um teatro cômico pós-dramático, sofisticado, brilhante, estético.
O tema é a precarização e a superexploração do trabalho de trabalhador@s de empresas de eventos culturais. O enredo é sobre os bastidores técnicos da montagem, desmontagem e remontagem de um evento em um teatro para a posse de uma autoridade. E desvela o estresse que envenena a atividade.
Na tensão da trama, iluminadores, cenógrafos, sonoplastas, produtores, maquiadores, seguranças e mestres de cerimônia são oprimidos por uma exaustiva jornada de trabalho com coerções e violências psicológicas que os estressam e esgotam. Mas também os estimulam a reagir e lutar contra o ambiente opressor.
Ao transformar este conteúdo em forma artística, os grupos formataram um fórmula estética criativa e inteligente. Integraram fábula(o cão capitalista), realismo fantástico (perna é personagem "normal"), distanciamento(diálogo participativo com a plateia), metalinguagem (teatro explicando teatro), humor, música ao vivo e dança.
A direção de Fernando Yamamoto e Lubi tem conceito de encenação experimental e contemporânea. Há harmonia estética entre atuação, cenografia, figurino e sonoplastia. Na formatação do espaço cênico, o palco vira plateia e a plateia vira palco. Há inteligência criativa no posicionamento dos atores. A continuidade é precisa.
A narrativa dramatúrgica ainda é linear. Há conexão causal entre as cenas. Mas o ritmo de encenação é genial. A evolução é fluente e alucinante. Os tempos das cenas são equivalentes. As transições são precisas. As mudanças de cenário são suaves. Há equilíbrio na pulsão entre momentos intensos e pausas.
Em leitura de conjunto, os atores e atrizes são brilhantes na construção de personagens vivas e na relação entre elas. Existe audição e resposta no diálogo cênico. Há uma genial expressividade cênica na gestualística e ritmo da fala. A verdade cênica arrebata. A coreografia movimenta a trama e ilumina a cena.
O teatro pós‑dramático Cão tem brilho estético, inventividade, comove. Porém, (ah, porém), a fabulação é simplória, antivegana, rasa, tola. Associa animal com maldade. O cão que late com o Diabo. Deprecia animais. Frase de " Dom Casmurro". Romance de Rubem Fonseca. Vastas emoções, pensamentos imperfeitos.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 12/3/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.


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