top of page

Arte viva: Poronominare: 30 anos do teatro indígena mito-ritualístico decolonial

Foto do escritor: José Ribamar Mitoso
José Ribamar Mitoso
há 11 minutos
2 min de leitura

A IA iaiá informa que foi em 2002. Mas a memória do teatro brasileiro registra que foi em 1996 que o teatro indígena mito-ritualístico foi criado. E que Poronominare foi a peça inaugural da estética teatral que decolonizou, descolonizou, contracolonizou e revolucionou a linguagem teatral brasileira. Que? Que conversa fiada é esta?

 

Tenha calma, leitor(a). Guarde o som e a fúria. Vamos combinar que sai barato. Controle-se. Em 1996, a Funarte/Minc publicou edital para selecionar dramaturgia e montagem para a  celebração do centenário do Teatro Amazonas. O diretor Luiz Vitali e o produtor Alberto Penkauskas me pediram um texto para inscrever. 

 

Eu estava lendo "o teatro e seu duplo", uma teoria do teatro da crueldade, de cru, de Antonin Artaud. A ideia era acabar com a hegemonia do texto no teatro ocidental. Substituir a linguagem lítero-verbal da fala por uma linguagem física, sensorial, mítica, ritualística, gestualística, mímica, mágica, puramente cênica, coreográfica e ancestral.


Escrevi Poronominare com esta estética. Uma dramaturgia que transformou este mito milenar dos povos Aruak do Rio Negro/Amazonas/ BR em linguagem cênica ritualística. Mais: Poronominare foi colocado em espaço urbano e no presente. E a linguagem baseada nas expressões cênicas e coreográficas dos rituais Aruak.

   

Ele é filho do amor assassinado. É satírico, mas não sádico. É louco, mas não perverso. É mágico, mas não ilógico. É malicioso, mas não cafajeste. É danado, mas não sinistro. É poliglota, mas não presunçoso. É antropofágico, mas não carnívoro. É Amazônico, mas não exótico. É personagem, mas não caricatura.

   

Poronominare obteve o Prêmio Nacional do Centenário e mais 3 prêmios nacionais. O Teatro Anti-Indígena foi criado no século XVI para catequizar os povos indígenas e satanizá-los. Pe. Anchieta expressou este conteúdo colonialista através da forma estética colonialista Auto Vicentino. Estética para profanar o sagrado indígena.

 

O Teatro Indigenista foi criado no século XX. Manteve a forma teatral colonialista europeia para tentar expressar um conteúdo anticolonial. Mas a forma não encaixou no conteúdo. Forma e linguagem permaneceram colonizadas, importadas de outra cultura, da qual emprestaram a comédia, a tragédia e a cantata.

 

Poronominare, dirigida por Luiz Vitali e encenada pelo Grupo Pombal Artes, fundou o teatro indígena mito-ritualístico, com conteúdo contracolonial e forma contracolonial correspondente, que incorporou expressões cênicas e coreográficas dos rituais indígenas em sua linguagem estética. Somos imitados. Mas jamais seremos ocultados. Arte viva.




Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.       


Rio de Janeiro (RJ), 5/11/2026.

 
 
 

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
bottom of page