Arte viva: Reflexões do gato Murr e a estética vegana
- José Ribamar Mitoso
- 16 de abr.
- 3 min de leitura
"A leitura tornou-se para mim uma necessidade. Logo percebi que eu era um gênio e que o mundo ainda não estava maduro para me compreender. Mas embora tarde, reconhecerá o gênio que fui. Morro como vivi: um grande poeta, um filósofo, um gato!”
(Fala do Gato Murr, in "Reflexões do Gato Murr" / de E.T.A. Hoffman)
Evito escrever sobre arte. É inutil tentar educar o gosto tolo formado pela mídia com valor de mercado e não com valor estético. E alguns apps detectores de plágio e IA também desestimulam a filosofia da arte. Textos sobre arte em alguns deles possuem escores de 80% de plágio e IA, para o app vender o corretor.
Antes de enviar meus textos para publicações em sites , sempre verifico a originalidade e o uso de IA nos apps grammarly, rephrasetool, copyleaks, quillbot. Apenas após 100% de originalidade e não uso de IA é que envio. Todavia, o app justdone informa falsamente plágio ou uso de IA para vender corretores de texto.Golpe.
Mas escrevo porque minha intenção não é limpar a lente do óculos do gosto de ninguém. Escrevo porque minha obra ficcional e meu pensamento estão focados na expressão estética da relação dos humanos com outros animais. Sobretudo na fábula como forma literária. Sou doutor em outros temas. Mas mestre em conto.
Homero (VIII.a.C), Esopo (V a.C.), Saadi (XII/ XIII) e Perrault (séc.XVII) narraram fábulas com narrador humano, em terceira pessoa, e "sobre" os animais, e não "como" animais. Balzac (1799-1850), com "penas de amor de uma gata inglesa" (1842), foi o primeiro a narrar em primeira pessoa, como animal e com sensiência estética vegana.
Depois de Perrault e antes de Balzac, o prusso-alemão ETA Hoffmann (1776-1822) repetiu Esopo, que criou animais bons e maus, estigmatizou alguns, e com isto incentivou maus-tratos que vem até hoje. Desde o conto "O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos" (1816), que inspirou o balé de Tchaikovsky, ETA difamava os ratos.
No romance "Reflexões do Gato Murr (1819), ETA difamou o gato. Foi o primeiro a narrar fábula em primeira pessoa, como animal, mas ainda sem a sensiência e a estética vegana que Balzac criou depois. O gato que narra sua autobiografia é descrito como um escritor vaidoso, narcísico, antipático, "mau".
Gato Murr tem este perverso conteúdo antivegan que estigmatiza animais. Mas uma forma artística genial.Complexo. É considerado o precursor do romance pós-modermo. Justapõe a narrativa cômica em primeira pessoa de Murr e a narrativa trágica em terceira pessoa sobre o maestro romântico Kreisler, pai humano de Murr.
Narrativa montada, fragmentada, não-linear, ilógica. Misturou no mesmo livro o manuscrito de Murr e o diário de Kreisler. Usou metalinguagem, paródia, diálogo com o leitor, que deve criar o sentido das versões da narrativa polifônica. Mas o gato Murr é "mau". E vários gatos foram encontrados sem cabeça em Barra Mansa / RJ.

Autor: José Ribamar Mitoso
Escritor, Dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Artes, Movimentos Culturais e Políticas Culturais no Brasil entre os séculos XVI e XXI.
Rio de Janeiro (RJ), 16/4/2026.
*Toda quinta-feira publica no site EPCC sua Arte Viva.

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