Crônicas do cotidiano: A bolha explodiu!
- Walmir de Albuquerque Barbosa

- 31 de mai. de 2024
- 4 min de leitura
Constatação ou espanto? Nem uma coisa nem outra. A esquerda está em crise e o que dela existe, no Brasil e no mundo, soluça angustiada ou vive a ilusão de um passado glorioso já há algum tempo. E não falo de uma esquerda revolucionária, mas de uma esquerda social-democrata. Daí a inconformação dos que não votam na direita, nunca se filiaram aos partidos da direita, nunca, também, recusaram a política como a forma possível da conquista do poder pela social-democracia e sentem-se órfãos de seus ideais. Sobretudo, aqueles que enfrentaram a ditadura militar, pedida repetidas vezes, por civis de direita e extrema direita, conhecidos aqui como “vivandeiras de quartéis”. Foi o investimento no voto e na luta contra o autoritarismo que forjou a esperança em um país melhor e a convicção de que os princípios do socialismo poderiam garantir a justiça social. Como nos diz Slavoj Zizek: “Não há surpresa aqui: quando o capitalismo vence, seus antagonismos explodem” (Uma esquerda que ousa dizer seu nome: 34 intervenções inoportunas. Petrópolis: Vozes, 2023, p. 7). Mas não é o fim. E prossegue o mesmo autor, na mesma obra: “isso não significa que não podemos mudar o futuro; significa apenas que, a fim de mudarmos o nosso futuro, devemos primeiro (não ‘entender’, mas) mudar nosso passado, reinterpretá-lo de tal maneira que se abra para um futuro diferente daquele implicado pela visão predominante do passado” (p.10). E o que tudo isso nos quer dizer?
Certamente, “autoritarismo nunca mais”! Embora tenhamos exemplos históricos, vindos do passado da esquerda, dos quais a direita se alimenta, como: o estado forte do socialismo, após a derrota dos soviets e o triunfo do Stalinismo que serve, até hoje, de modelo às ditaduras que se dizem “socialistas”; a crença em líderes, que sozinhos ou acompanhados de um partido único, prometem redimir o povo da miséria, com mágica, e tornam o socialismo uma farsa; a ditadura do proletariado, quando este encontra-se em extinção, não só pela globalização da economia como também pelo aburguesamento da classe trabalhadora prometida pelo capitalismo, deixando para trás um lúmpen e não um vir a ser de classe operária. Antes de construir a sociedade de bem-estar social, a esquerda que chegou ao poder nos países pobres, forçada ou não pelas circunstâncias ou alianças, adotou pautas neoliberais almejando a sociedade de resultados, namorou a meritocracia, fez privatizações e abraçou a precarização do trabalho, cedendo, assim, ao capitalismo, o seu viço. Zizek nos lembra que é preciso repensar a história e furar as bolhas em que se transformaram os partidos de esquerda dirigidos por uma casta que os transforma em pedra, e não vê o cotidiano do mundo.
Diante dos indicadores do Brasil, o quadro de dificuldades se avoluma com nossas questões historicamente não resolvidas, como a exclusão dos indígenas, apartados da plena cidadania; e a inclusão subalterna dos negros na sociedade pelo viés racial do embranquecimento, obsessão das elites e responsável direta das desigualdades sociais, acrescida da tragédia do racismo e privações diversas. As pautas de luta identitária desses dois grupos tornaram-se bandeiras da esquerda, não por razão cultural evidente, mas porque não pode haver nenhum projeto socialista de nação, sem que extirpemos essa chaga estúpida de excludência e de exploração da parte majoritária da Nação que, existindo, dá longevidade ao latifúndio, à escravidão disfarçada e faz surgir o capitão-do-mato na forma de milícia ou polícia. Quanto aos outros segmentos das lutas identitárias (de gênero, sexistas e de costumes), pelo seu caráter horizontal, isto é, não ligado a uma classe social específica, encontra guarida em parte da esquerda, servindo como ponto de confronto contra a direita, que os rejeita de pronto. Também porquê, esses movimentos sociais geram quadros aguerridos, preparados e, muitos dos quais, ideologicamente situados na esquerda, assumindo a identidade de luta sua e de outros segmentos sociais, necessários e justos. Porém, nada disso muda a situação se não encararmos a história e a luta político-ideológica dentro dos partidos de esquerda e em todos os campos da esfera pública, revendo as ações e interagindo com o povo. Não se trata somente de luta pela sobrevivência de um ideário socialista, mas pela dignidade e pela decência!

Jornalista Profissional.
Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas.
Manaus (AM), 31/5/2024.
*Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano.
Confira na obra "Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia".
Confira no canal do EMERGE a entrevista no programa Programa Comunicação em Movimento 09
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