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Crônicas do cotidiano: Onde moram os mais pobres?

  • Foto do escritor: Walmir de Albuquerque Barbosa
    Walmir de Albuquerque Barbosa
  • 10 de mai. de 2024
  • 4 min de leitura

Onde moram os mais pobres? A resposta será sempre dolorosa para uma consciência honesta. E, do ponto de vista geográfico, de fácil localização pelos que se preocupam com a desgraça humana: moram na periferia do mundo! Lugares onde ninguém que superou a linha da pobreza quer ficar: nas baixadas alagadiças dos rios que cortam cidades populosas; nas encostas perigosas que pedem para desabar; nos lugares insalubres onde não chegam a água encanada, o saneamento básico, a luz, o transporte urbano digno; onde a violência animal se manifesta com a naturalidade que já não comove ninguém; onde a justiça se faz com as próprias mãos; ou, quando verdadeiramente chega o Estado, é da forma mais cruel, pondo em risco o único bem de que desfrutam, a vida. Assim, todos ficam expostos à mesma contingência e rotulações que os caracterizam, distinguindo-os dos demais,  que passam a ter o direito a um pedacinho do mundo melhor. Nos momentos críticos: intemperes mais graves, enchentes dos rios, tsunamis dos mares, passagens desastrosas das ventanias; desabamentos de encostas e incêndios, os moradores se mostram, escandalizam ou despertam o “espírito de solidariedade” dos que não são culpados desse estado de coisas, dos culpados que temem o castigo e, ainda, dos que veem nisso as oportunidades inconfessáveis, dentre elas, aproveitar-se vergonhosamente dos momentos de crise para proselitismos variados. E louvo aqui aqueles que doam parte do que têm e que lhes são necessárias, que tiram de si para doar aos outros ou se oferecem voluntariamente para servir e socorrer por amor ao próximo.

 

Esse mundo está, também, aqui pertinho de nós, esgotando toda a “toponímia messiânica”, de que nos fala Samuel Benchimol (Amazônia: um pouco antes e além depois. Manaus: Editora Umberto Calderaro, 1977), que levantou as nominações dadas às localidades na Amazônia no período do Ciclo da Borracha, revelando o “estado emocional e psicossocial do migrante nordestino... a personalidade e a identidade dos tipos humanos que aqui chegaram” (p.336). O autor citado organiza os achados em cinco categorias que ele denomina: Toponímia messiânica da Salvação; do Sucesso e da Fortuna; da Misericórdia e do Desespero; da Paisagem e do Chão; da Lembrança e da Saudade (p. 335-339). Isso se repete em todo o mundo e não é novidade. Quando se criou a periferia de Manaus, os novos migrantes foram denominando as áreas ocupadas dessa mesma forma, termos que expressavam esperança, sofrimento, desprezo, abandono e até preconceito. Foram tomados de novelas, de espetáculos famosos, de filmes, de termos bíblicos, e de esperança de trabalho, dando origem aos bairros da cidade: Cidade das Palhas (formada pelos expulsos da Cidade Flutuante, destruída no início da Ditadura); Planeta dos Macacos; Coroado; Compensa; Rota 1, Rota 2,… até Rota 7, rotas dos ônibus que arregimentavam os primeiros trabalhadores do Polo Industrial da Zona Franca de Manaus; Novo Israel (aterro sobre um lixão da cidade); Monte das Oliveiras; Nova Esperança; União; Sapolândia (sobre o aterro da lagoa sanitária de um conjunto habitacional). Mais recentemente, “Porco Fumado” e “Faixa de Gaza”, na Zona Vermelha da Cidade, ocupada por milícias.

 

Juntam-se às coisas citadas outras mais complexas, que a ciência explica e os negacionistas recusam a aceitar, é o caso do que estamos a ver no Sul do Brasil. O negacionismo ambiental, negacionismo às vacinas, à ciência de um modo geral, mostrou as suas garras e o resultado está ai: esse triste espetáculo, onde os pobres são os mais afetados; as estruturas seculares da urbanização desabam por falta de manutenção; o labor humano é reduzido ao nada; remediados migram para casas de praia ou se preservam nos melhores lugares da geografia da cidade e acionam os seus seguros em eventuais perdas e danos; o país se comove e os que desconhecem os pobres que moram a seu lado são tomados de espanto; outros, meliantes de carteirinha, furtam barcos de salvamento; e os cretinos de luxo só pensam nas dispensas de licitações. É preciso socorrer e proteger os flagelados, independentemente da condição social, mas é preciso, também, aprender com a nova realidade e, na reconstrução, pensar criticamente nos nossos velhos problemas!



Jornalista Profissional.

Professor Emérito e ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas.

Manaus (AM), 10/5/2024.

*Toda sexta-feira publica no site EPCC suas Crônicas do cotidiano.

Confira na obra "Trajetórias culturais e arranjos midiáticos" (2021) seu capítulo "Comunicação, Cultura e Informação: um certo curso de jornalismo e vozes caladas na Amazônia".

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