Literatices: Roteiro de Leitura – Machado de Assis

Ao contrário do que se deu comigo em relação aos ficcionistas brasileiros Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego; e, sobretudo, apesar do estranhamento, à primeira vista, causado pela recepção da linguagem árdua da cavalgadura vocabular à moda Euclides da Cunha, o fantástico e famigerado Guimarães Rosa, os escritores Machado de Assis e Clarice Lispector arrebataram-me vagarosamente, como quem se embriaga de um bom vinho tinto lusitano, cálice por cálice, até degustar o cerne da matéria-prima extraída da videira-escritura. Não obstante, embora haja em sua prosa de ficção de maior fôlego forjada por magnífica, contraditória e absurda imperfeição narrativa –– mais ainda do que pelo domínio pleno e onisciente do discurso intrínseco ao gênero literário, como se nota em seus mestres e mentores Flaubert, Stendhal e Eça de Queiroz, por exemplo ––, no que tange à leitura deste genial criador de Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, creio eu que, digamos, a iniciação machadiana deva ser, ritualisticamente, engendrada pelos “contos fluminenses” do autor, que abrangem toda a geografia humana em sua análise psicossocial da Corte de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Neste contexto, o ponto de partida deste roteiro de leitura há de ser o mergulho triunfal em sua obra-prima O Alienista, mais completa e fascinante experiência de Machado de Assis como contista, embora haja argumento de autoridade sobre o fato de que a história do Dr. Simão Bacamarte extrapole o que designamos como gênero literário de ordem sintética, tornando-se, portanto, uma novela; e, não, um conto no sentido restritivo da análise crítica. Entretanto, eu, particularmente, sou partidário da classificação de que o enredo desenvolvido em Itaguaí há de ser retratado como conto, na linha de A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói; e “A hora e a vez de Augusto Matraga”, extraído do livro Sagarana, de Guimarães Rosa. Curiosamente, a obra de estreia de Machado de Assis, intitula-se Ressurreição, data de 1872 e fora publicada pela editora B. L. Garnier, ao passo que a obra homônima de Tolstói veio à tona pela primeira vez em 1899, em formato de folhetim da revista Niva, o que nos impele a indagação de que teria o mestre realista russo plagiado o título machadiano ou o autor de Guerra e Paz sequer teria conhecimento da existência do livro de um tal Bruxo do Cosme Velho?
De fato e direito, as coincidências assim como os bruxos, sem variação de gênero, podem existir sem que se altere o rumo da humanidade, vide o provérbio de origem galega “Eu non creo nas meigas, mais habelas hainas”, que, posteriormente, fora adaptado para o castelhano como “No creo en brujas, pero que las hay, las hay”. Por esta mesma linha de interpretação dos astros e estrelas, como se explicar a coincidência de Guimarães Rosa ter nascido no ano do falecimento morte de Machado de Assis – 1908? Ora, deixemos de superstições e retomemos as rédeas da crônica, Leitoras prezadíssimas, porque, caso contrário, hei de fugir à linha temática proposta pelo título do artigo. Logo, neste Roteiro de Leitura, salvo engano, estava eu discorrendo pelo início da ação –– sim, o verbo de ação “Ler” provém do latim legere que, originalmente, significava colher ou apanhar ––, por intermédio dos contos machadianos...
Após o término da leitura do conto O Alienista, sugiro que, para além das páginas dos clássicos “A Cartomante”, “Uns braços” e “Missa do Galo”, facilmente encontráveis nas antologias colegiais, mergulhe a fundo na dialética paradoxal de “A Igreja do Diabo”, a mais formidável e inteligente decodificação do contraditório da alma humana; e depois “A Causa Secreta”, este último à Allan Poe. Há outros registros admiráveis do maior contista da Língua Portuguesa, de modo que vale a pena dar atenção ao belíssimo estudo psicológico da consciência de “O Espelho”; no minucioso retrato do limite da paternidade de “Pai contra Mãe”, que nos reporta ao episódio bíblico do Julgamento de Salomão (Reis 3:16–28), quando a progenitora opta pela salvação do seu rebento que seria sacrificado. No mesmo âmbito familiar, cabe a indicação de “Teoria do Medalhão”, construído através do diálogo entre Pai e Filho, por um viés, republicanamente, anti-platônico repleto de ironia na concepção do bem-comum impetrado pelo Rei-Filósofo; digo, pelo Medalhão.
Enquanto se ateve à influência e égide do naturalista português Eça de Queiroz, com a publicação das primeiras obras em prosa de ficção “Ressurreição” (1872), “A Mão e a Luva” (1874), “Helena” (1876) e “Iaiá Garcia” (1878), se bem que seja a fase realista e não romântica como atestara José Veríssimo, o excepcional Machado de Assis não conseguiu sequer superar o “chefe de nossa literatura”, consoante Joaquim Nabuco alcunhara José de Alencar, autor de “Lucíola” (1862) e “Senhora” (1875). Destarte, é fato que o genial Machado de Assis só iria se transformar no maior escritor brasileiro de todos os tempos, quando, publica a sua obra-prima Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881. Não obstante, para evitar os piparotes do defunto-autor, neste roteiro de leitura aconselha-se que se inicie a experiência machadiana por dois de seus mais brilhantes e menos afamados registros literários. Após cumprir o rito de iniciação, o Leitor-aprendiz estará apto a enfrentar outras narrativas de menor fôlego do autor, sem ordem cronológica de publicação, tais como: “Miss Dollar”, da primeira fase que demarca a obsessão machadiana por viúvas, hábito que, posteriormente, desaguará em seu mais inspirado discípulo Nelson Rodrigues — sugiro a leitura comparativa das Memórias póstumas; e com o discurso dramatúrgico de “Vestido de Noiva”.
Em retorno ao diálogo com “Teoria do Medalhão”, o conto machadiano deve ser lido em analogia ao metafórico “O Homem que Sabia Javanês”, de Lima Barreto. A partir do processo de aprendizagem a respeito das abordagens psicológicas do espírito humano — lembre-se de que Eça dizia havia dito o Realismo era a anatomia do caráter —, o Leitor se habilitará a enfrentar os admiráveis registros “O Espelho”, “Um Esqueleto” e “O Enfermeiro”. Cumprido o rito de passagem, o(a) Leitor(a) estará apto(a) a enfrentar a magnífica dois de seus grande livros Quincas Borba, a mais quixotesca criação de Machado, que influencia a escrita de O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho; e, finalmente, a sua obra que rivaliza em matéria de magnificência com as Memórias póstumas de Brás Cubas, o magistral Dom Casmurro, considerado o divisor de águas da prosa de ficção pátria, pois a literatura nacional pode ser dividida em antes e depois de Machado de Assis, a.MA e d.MA.
É impressionante como o nada extraordinário enredo de Dom Casmurro irá desestabilizar, a proposição de verossimilhança do movimento no âmago do Realismo. Em paralelo com as reminiscências de Brás Cubas, sugiro que se coteje com “A Relíquia” (1887), como constatação de que o estilo machadiano no momento subsequente numa via de mão dupla influenciará Eça de Queiroz. Feita a conferição entre o mestre lusitano e o sábio-feiticeiro fluminense, enfim indica-se a leitura crítica de “Isaú e Jacó” (1904) e “Memorial de Aires” (1908), sem medo de equivocar-me, são obras menores, subscritas no bojo da decadência (e lassidão) do estilo magistral cultuado pelo Bruxo do Cosme Velho, em seus dois romances mais inspirados Memórias póstumas e Dom Casmurro.
Por fim, em Dom Casmurro, romance de fim de século, que, conforme bem observou a crítica de literatura Hellen Caldwell, o narrador nada onisciente houvera de ser Otelo e Iago de si mesmo, nós deparamo-nos com a fórmula mais básica de um enredo: dois companheiros de futuro ofício (o sacerdócio), Bento Santiago e Escobar, e uma atraente dama casadoira, Maria Capitolina. Subjugada a resistência materna com o argumento da ausência de vocação sacerdotal, Bentinho matrimoniar-se-á com Capitu; e, no velório do exímio praticante de natação, o afogado Escobar, Bento Santiago flagrará a até então devotada esposa a desfiar um rosário de lágrimas silente, diante do cadáver do antigo companheiro seminarista do esposo. O episódio torna-se a justificativa mais plausível para a desconfiança da suposta traição conjugal; todavia, ao contrário das heroínas da prosa de ficção realista, desde Emma Bovary, de Gustave Flaubert, até Ana Karenina, de Liev Tolstói, e Luísa de O Primo Basílio, de Eça de Queiróz, ao contrário da habitual comprovação narrativa sobre a deslealdade feminina, magistralmente, instaura-se a dúvida de adultério.
Afinal, Capitu traiu (ou não) Bentinho?

Autor: Wander Lourenço
Membro da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), do Pen Clube do Brasil e da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ). Docente Externo Permanente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), pesquisador de Pós-Doutorado em Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa – Portugal; de Pós-Doutorado da Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO; e pesquisador de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Minas gerais – UFMG. Doutor em Literatura Comparada (UFF).
Diretor dos documentários "Carlos Nejar, o Dom Quixote dos Pampas" (2015); "Nélida Piñon, a dama de pétalas" (2017); "O Cravo e a lapela – vida e obra de Ricardo Cravo Albin" (2021). Autor de livros e idealizador do programa de entrevista Literatices.

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