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Mídia no Brasil: IA, religião e cidadania

Foto do escritor: Eula D.T.Cabral
Eula D.T.Cabral
há 6 dias
7 min de leitura

Falar sobre mídia no Brasil é um desafio. Mas, é preciso colocar o tema sempre em pauta, uma vez que está ligado também à IA, religião e cidadania. Na semana passada, dia 7/10/2026, destacamos que a cidadania - direitos e deveres das pessoas, além do pluralismo político e políticas públicas -, só é possível se tivermos um país democrático. Algo que é o cerne da Constituição federal de 1988, conhecida como Constituição cidadã. De acordo com o artigo 1º da Constituição federal de 1988,


"A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

I - a soberania;

II - a cidadania;

III - a dignidade da pessoa humana;

IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;        

V - o pluralismo político.

Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição".


Estudos feitos por cientistas políticos registraram que, se os direitos e deveres das pessoas não forem respeitados, o povo perde sua liberdade e sofre com o autoritarismo. Marilena Chauí (2008, p.69) destacou:


"Dizemos, então, que uma sociedade – e não um simples regime de governo – é democrática quando, além de eleições, partidos políticos, divisão dos três poderes da república, respeito à vontade da maioria e das minorias, institui algo mais profundo, que é condição do próprio regime político, ou seja, quando institui direitos e que essa instituição é uma criação social, de tal maneira que a atividade democrática social realiza-se como uma contra-poder social que determina, dirige, controla e modifica a ação estatal e o poder dos governantes".



E por estarmos falando sobre a população brasileira, outro eixo fundamental para a análise é que a maioria desses brasileiros, que são controlados pela mídia, é formada por religiosos. Dados mostrados pela Pesquisa Dados Religiosos 2026, registrando 56,7% de católicos e 26,9% de evangélicos, além dos 9,3% que não têm religião. Com um número expressivo de católicos, ressaltamos um dos documentos publicados pelo papa Leão XIV, que faz uma análise criteriosa sobre o uso da IA na sociedade atual: Carta encíclica magnifica humanitas do santo padre Leão XIV sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, dando destaque ao "capítulo III: Técnica e domínio. A grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA".


Diante desse quadro, vamos entender hoje o que é IA, o que ela envolve e por que é um tema que causa grande preocupação, inclusive no papa Leão XIV.

Inteligência Artificial (IA) é o desenvolvimento de sistemas de computador capazes de realizar tarefas que requerem inteligência humana. Envolve criação de algoritmos - sequência de instruções ou comandos realizados de maneira sistemática com o objetivo de resolver um problema ou executar uma tarefa - e modelos que permitem às máquinas aprender com dados, reconhecer padrões, tomar decisões e resolver problemas.


A IA baseada em regras 
envolve a programação de regras específicas para cada tarefa desempenhada. É o caso da filtragem de spam, que utiliza um conjunto de regras para identificar
 o que é ou não indesejado, ou de semáforos, que utilizam um conjunto de regras para determinar quando as cores devem mudar.


Já a IA de aprendizagem automática, não requer que os computadores sejam pré-programados. É o caso do ChatGPT, que utiliza a aprendizagem automática; serviços de streaming, com recomendação de filmes e programas de TV com base no histórico de 
 visualização dos usuários; plataformas de redes sociais, que personalizam os feeds de notícias com base nos interesses e atividades do usuário; assistentes virtuais, como a Siri e a Alexa, que permitem que os usuários controlem dispositivos com a voz.


Existem três formas de utilização de IA: 1. Visão computacional
 - que extrai informações significativas de imagens ou vídeos digitais e pode identificar rostos de pessoas e objetos. Utilizada para desbloquear smartphones pessoais e ajudar robôs e carros autônomos na navegação por obstáculos. 2. Processamento de linguagem natural (PLN) - que interpreta a linguagem humana e pode gerar uma nova linguagem falada e escrita. 
É utilizada para traduzir texto de uma língua para outra, responder perguntas e 
resumir informações.


3. Reconhecimento de voz 
- utiliza computadores para analisar arquivos de áudio para reconhecer e interpretar a linguagem falada. Utilizada para 
gerar automaticamente legendas ocultas.


A IA generativa, subconjunto da aprendizagem automática que pode criar novos conteúdos, como texto, imagens e áudio, a partir de grandes quantidades de dados existentes, é bastante utilizada pelas pessoas. Isso se dá por que os grandes modelos de linguagem (LLM) são treinados em grandes quantidades de dados de texto. O ChatGPT é um chatbot de grande modelo de linguagem (LLM) que utiliza o processamento de linguagem natural (PLN) para gerar texto novo, produzindo também imagens, código e música originais e até criando conteúdo novo e exclusivo.


A IA, como ferramenta, é tratada pelo papa Leão XIV em "A inteligência artificial"
: "Uma ajuda preciosa que requer atenção" dentro do "capítulo III: Técnica e domínio. A grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA" da Carta encíclica magnifica humanitas do santo padre Leão XIV sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial:


"100. À luz de quanto foi exposto, podemos compreender melhor por que razão a inteligência artificial pode ser uma ajuda preciosa, exigindo, ao mesmo tempo, uma abordagem sóbria e vigilante. Nos últimos anos, o seu uso privado cresceu de modo notável e em vários setores reflete-se sobre as oportunidades e os riscos associados à sua rápida difusão. Na utilização pessoal, devem ser devidamente considerados, em particular, três aspectos: a facilidade de obter o resultado, a aparência de objetividade e a simulação da comunicação humana. A rapidez e a simplicidade com que é possível obter orientações, processamentos complexos, conteúdos mediáticos e formas de assistência concreta simplificam as nossas vidas, mas também podem habituar-nos a delegar em demasia e a procurar respostas prontas, enfraquecendo a própria opinião e a criatividade. A aparência de objetividade que as respostas e as propostas destes sistemas podem suscitar, corre o risco de nos fazer esquecer que elas refletem os parâmetros culturais de quem os concebeu e treinou, com todos os seus méritos e defeitos. A imitação artificial de uma comunicação humana positiva – palavras de conselho, empatia, amizade, amor – pode revelar-se gratificante e até útil, mas, em utilizadores pouco conscientes, pode induzir em erro e criar a ilusão de estarem em relação com um sujeito pessoal autêntico. Quando a palavra é simulada, mas não encarnada, ela não constrói uma relação, mas sim uma aparência dela. A imitação artificial da relação de cuidado ou de acompanhamento pode tornar-se perigosa quando se insinua num contexto pobre de relações e afetos concretos: então, o risco não é tanto que uma pessoa acredite estar a falar com outra, mas que perca o desejo de procurar verdadeiramente o outro." Além de simular a verdade e enganar as pessoas que não entendem o que leem, veem ou ouvem, o uso excessivo da IA também causa danos ambientais. Afinal, as instalações de IA em grande escala ocorrem em data centers, inclusive os operados por provedores de serviços em nuvem. Seus componentes eletrônicos dependem de uma quantidade de matérias-primas. Os microchips que alimentam a IA necessitam de elementos de terras raras, que são extraídos de maneira destrutiva para o meio ambiente. Os data centers, que instalam a IA, produzem lixo eletrônico, que contém substâncias perigosas, como mercúrio e chumbo; usam muita água e precisam de muita energia, que, na maioria dos lugares, vem da queima de combustíveis fósseis, produzindo gases de efeito estufa que aquecem o planeta.

Assim, é preciso entender que o uso da IA, ao mesmo tempo que produz muito dinheiro aos seus empresários, pode levar à destruição do Planeta. Sobre "responsabilidade, transparência e gestão da IA", o papa Leão XIV chama atenção para:


"108. Com efeito, tal como acontece com qualquer grande avanço tecnológico, a IA tende a reforçar sobretudo o poder daqueles que já dispõem de recursos econômicos, competências e acesso aos dados. À luz do bem comum e da destinação universal dos bens, este fenômeno suscita sérias preocupações: pequenos grupos muito influentes podem orientar a informação e o consumo, condicionar processos democráticos e incidir sobre dinâmicas econômicas em seu próprio benefício, contrariando a justiça social e a solidariedade entre os povos. Por isso, é indispensável que a utilização da IA – sobretudo quando envolve bens públicos e direitos fundamentais – seja acompanhada por critérios claros e controles efetivos, inspirados na participação e na subsidiariedade: as comunidades e os organismos intermédios não podem ser reduzidos a destinatários de decisões que não foram tomadas por eles mesmos, mas devem poder contribuir para o discernimento e a vigilância. Além disso, a propriedade dos dados não pode ser confiada apenas a entes privados, mas deve ser regulamentada. Estes são fruto da contribuição de muitos e não podem ser vendidos ou confiados a poucos. 
É necessária uma criatividade capaz de os gerir como um dos bens comuns ou coletivos, numa lógica de partilha, tal como já sugeria São João Paulo II, a propósito dos bens coletivos."


No que tange à regulamentação da IA no Brasil, precisa ser feita urgentemente. Temos em voga dois Projetos de Lei (PL):


  • Projeto de Lei n.º 2.338/2023
, 

cujo artigo primeiro ressalta que: "Esta Lei estabelece normas gerais de caráter nacional para o desenvolvimento, implementação e uso responsável de sistemas de inteligência artificial (IA) no Brasil, com o objetivo de proteger os direitos fundamentais e garantir a implementação de sistemas seguros e confiáveis, em benefício da pessoa humana, do regime democrático e do desenvolvimento científico e tecnológico".


  • Também destaca-se o Projeto de Lei n.º 2688/2025
 que "institui o Marco Regulatório do Desenvolvimento e Uso da Inteligência Artificial no Brasil, estabelece direitos, deveres, princípios, mecanismos de governança, normas de transparência e responsabilidade civil e penal, e dá outras providências".


Assim, precisamos entender que a IA é ferramenta - não pode substituir a inteligência humana
. Os conglomerados estrangeiros, que controlam a IA no mundo todo, dominam e manipulam os nossos dados. Logo, não podemos permitir que estrangeiros continuem nos controlando e interferindo na nossa vida. Algo que só será possível quando tivermos a regulamentação da IA no Brasil.


Outra preocupação que devemos ter é que precisamos valorizar e respeitar as pessoas, não acreditando em tudo que é publicado na web. Para isso, é preciso investir no conhecimento - através dos estudos e pesquisas nas escolas, universidades e institutos de pesquisa - e que regulamentar a mídia é sinônimo de soberania.


*No dia 17 de outubro de 2026 (sábado), às 16h, realizaremos, ao vivo, o 55. Seminário de Pesquisas Científicas no canal do youtube EPCC Brasil. Analisaremos a relação entre os temas apresentados. Faça sua inscrição gratuitamente e garanta seu Certificado: https://doity.com.br/55-seminario-de-pesquisas-cientificas


Autora: Eula D.T. Cabral  

Doutora e Mestre, com pós-doutorado, em Comunicação Social.  

Dentre suas obras, destacam-se: o livro Concentração da mídia no Brasil: radiodifusão e telecomunicações (2023) - A obra pode ser adquirida a partir do email midianobrasil24@gmail.com - e o projeto de pesquisa  Cultura, Comunicação e Informação na era digital (2025). 



 
 
 

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